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Pesquisadores confirmam detalhe fundamental sobre crucificação de Cristo descrito na Bíblia

Novo estudo liderado pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro investigou detalhe intrigante presente no relato bíblico da crucificação de Jesus Cristo

Antiga pintura representando Jesus Cristo carregando a cruz e com uma Coroa de Espinhos / Crédito: Getty Images

Um novo estudo médico revisou registros históricos e décadas de pesquisas científicas para investigar um detalhe intrigante presente no relato bíblico da crucificação de Jesus Cristo: o fato de ele ter morrido antes dos dois homens executados ao seu lado. Segundo os autores, os dados médicos e históricos disponíveis sugerem que essa afirmação bíblica pode ser explicada pelos efeitos fisiológicos extremos provocados pela crucificação.

O episódio aparece no Evangelho de João, que descreve como soldados romanos quebraram as pernas dos dois criminosos crucificados ao lado de Jesus para acelerar suas mortes. Quando chegaram até ele, porém, os soldados decidiram não realizar o procedimento porque perceberam que ele já estava morto.

Esse detalhe há muito tempo desperta a curiosidade de historiadores e médicos. Como destaca o portal Daily Mail, em muitas execuções por crucificação registradas na Antiguidade, as vítimas podiam permanecer vivas por muitas horas ou até mesmo por vários dias antes de morrer.

O estudo, revisado por pares, analisou diferentes hipóteses médicas para explicar a morte de Jesus durante a execução descrita no Novo Testamento. Entre as causas possíveis consideradas pelos pesquisadores estão asfixia, embolia pulmonar e perda severa de sangue. De acordo com a análise, o mais provável é que a morte tenha sido resultado de vários fatores combinados que levaram a um colapso do sistema circulatório e respiratório.

Os autores destacam que o tema já gerou inúmeras interpretações ao longo dos anos. “Houve muita especulação sobre a verdadeira causa da morte de Jesus Cristo, e esse assunto tem sido discutido por estudiosos de todo o mundo”, escreveram no artigo.

Propondo revisões

Para conduzir a investigação, os pesquisadores realizaram uma revisão narrativa da literatura médica e histórica disponível sobre a crucificação descrita nos Evangelhos. O objetivo foi examinar as teorias propostas por diferentes autores ao longo do tempo, procurando analisar as explicações médicas possíveis sem adotar qualquer abordagem religiosa. O trabalho foi publicado na revista científica International Journal of Health Science.

A crucificação era uma das formas mais cruéis de execução utilizadas no mundo romano antigo. Normalmente, as vítimas eram submetidas a severos castigos antes da execução e, em seguida, obrigadas a carregar uma pesada viga de madeira até o local onde seriam executadas. Depois disso, eram pregadas ou amarradas à cruz.

Segundo os pesquisadores, todo o processo era projetado para provocar sofrimento prolongado. Em muitos casos, a morte ocorria apenas após muitas horas ou até dias de agonia.

Possíveis explicações

Uma das explicações médicas mais aceitas para mortes por crucificação é a asfixia. A posição do corpo na cruz dificultava a respiração, pois os braços erguidos e estendidos limitavam o movimento natural das costelas.

Essa limitação respiratória pode provocar Hipoxemia, uma condição caracterizada por níveis perigosamente baixos de oxigênio no sangue. Com o passar do tempo, o esforço para respirar se torna cada vez mais intenso, até que os músculos responsáveis pela respiração entram em exaustão, levando à asfixia.

No entanto, pesquisadores liderados pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro afirmam que outros fatores médicos também podem explicar por que Jesus morreu antes da maioria das vítimas de crucificação.

Uma possibilidade considerada é a ocorrência de Embolia pulmonar, um bloqueio repentino nos vasos sanguíneos dos pulmões causado por um coágulo. De acordo com o estudo, fatores como desidratação, traumas físicos intensos e imobilização prolongada, podem favorecer o surgimento desse tipo de evento.

Os autores relacionam essa hipótese à chamada Tríade de Virchow, conjunto de condições descritas pelo médico alemão Rudolf Ludwig Karl Virchow que favorecem a formação de coágulos sanguíneos. Outra explicação possível é o Choque hipovolêmico, uma condição potencialmente fatal causada pela perda maciça de sangue e pela desidratação extrema.

Castigos severos

Segundo o estudo, os relatos bíblicos indicam que Jesus foi submetido a severos castigos antes de ser pregado na cruz. As chicotadas descritas nos textos poderiam ter provocado ferimentos graves e grande perda de sangue.

Além disso, os Evangelhos registram que Jesus teve sede enquanto estava na cruz, um detalhe que pode indicar um quadro de desidratação. Os pesquisadores estimam que ele pode ter ficado cerca de doze horas sem comer ou beber entre a Última Ceia e o momento da crucificação.

A combinação de desidratação intensa com perda de sangue poderia ter provocado um colapso circulatório fatal. Os cientistas também mencionam a possibilidade de Coagulopatia induzida por trauma, um distúrbio grave da coagulação sanguínea que pode surgir após lesões físicas severas.

Uma combinação de fatores

Diante de todas essas hipóteses, os autores concluem que a morte de Jesus provavelmente não teve uma única causa específica. Em vez disso, ela teria resultado de uma combinação de fatores fisiológicos extremos provocados pela execução.

“Com base no conhecimento atual, presume-se que a morte tenha sido multifatorial e resultado de colapso circulatório e cardiopulmonar”, afirmam os pesquisadores.

Embora talvez nunca seja possível determinar com total certeza o que ocorreu naquele momento, o estudo sugere que as descrições presentes nos Evangelhos são compatíveis com os efeitos médicos conhecidos da crucificação.

Segundo os autores, o episódio continuará despertando o interesse de historiadores, teólogos e especialistas em medicina. O debate sobre as circunstâncias da morte de Jesus, conclui a equipe, provavelmente seguirá sendo tema de pesquisa e discussão em diversas áreas do conhecimento ao redor do mundo.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.