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Peixe-palhaço perde listras do corpo por pressão social, diz estudo

Nova pesquisa aponta que pressão social em anêmonas influencia mudança de aparência em espécie de peixe-palhaço; entenda!

Peixe-palhaço observado em estudo / Crédito: Divulgação/Camille Sautereau

Um estudo recente publicado na revista PLOS Biology indica que a perda das listras brancas em peixe-palhaço-tomate juvenis está ligada à pressão social exercida por adultos do grupo. Segundo os pesquisadores, o momento e a extensão dessa mudança de aparência parecem ser determinados principalmente pela dinâmica hierárquica dentro das anêmonas que esses animais habitam.

O peixe-palhaço-tomate (Amphiprion frenatus) apresenta, na fase inicial da vida, duas ou três listras brancas verticais sobre o corpo laranja. À medida que cresce, o animal perde a maior parte dessas marcas, mantendo apenas uma faixa atrás dos olhos. Essa transformação pode ocorrer entre 1 e 12 meses de idade, mas até agora as razões para essa variação temporal não estavam claras.

A espécie pertence ao mesmo gênero do peixe-palhaço-ocellaris (Amphiprion ocellaris), popularizado pelo filme ‘Procurando Nemo’. O peixe-palhaço-tomate vive no Oceano Pacífico Ocidental e encontra abrigo entre os tentáculos de anêmonas-bolha. Como esses invertebrados marinhos são recursos disputados, os peixes estabelecem hierarquias rígidas. Em geral, cada anêmona abriga um casal reprodutor adulto — macho e fêmea — que defende o território. Juvenis podem compartilhar o espaço, desde que respeitem sua posição inferior na hierarquia.

Pesquisas anteriores já sugeriam que as listras brancas funcionam como mecanismo de comunicação visual e que os peixes conseguem se reconhecer individualmente. Para investigar o papel dessas marcas, cientistas criaram filhotes em laboratório e acompanharam o processo de mudança de padrão corporal sob quatro condições distintas.

Detalhes do estudo

Em dois cenários — um tanque apenas com água e outro com água e uma anêmona artificial de plástico — os juvenis mantiveram as listras extras após 20 dias. Em um terceiro ambiente, com anêmona viva, as listras continuavam visíveis ao fim do período, embora apresentassem sinais de desbotamento.

A diferença mais marcante surgiu quando os pesquisadores colocaram juvenis em um tanque com anêmona viva e um casal adulto. Nessa situação, os jovens começaram rapidamente a perder as listras adicionais, que praticamente desapareceram até o 20º dia.

Os autores sugerem que as listras extras funcionam como sinal visual indicando que o juvenil não representa ameaça ao casal reprodutor. Uma vez aceito no grupo e garantido o acesso ao abrigo, o peixe perde as marcas excedentes, que deixam de cumprir função social. “Mesmo sendo o membro de menor hierarquia, você ainda é um membro”, diz a coautora do estudo, Laurie Mitchell, bióloga marinha do Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa, no Japão, à NPR.

A pesquisa também levanta a hipótese de que a manutenção temporária das listras possa servir como estratégia defensiva. Caso um juvenil encontre uma anêmona desabitada, manter a aparência juvenil poderia reduzir o risco de expulsão em caso de invasão por adultos. “É basicamente uma apólice de seguro”, diz Mitchell em um comunicado. “Se um adulto invasor invadir sua anêmona, há menos chances de ele ser expulso se mantiver sua aparência jovem [com múltiplas listras].”

Além do aspecto comportamental, o estudo examinou os mecanismos fisiológicos envolvidos na mudança de coloração. Os pesquisadores identificaram que hormônios produzidos pela glândula tireoide parecem modular a ativação de genes, provocando a morte das células responsáveis por refletir a luz e formar as listras brancas, repercute a Smithsonian Magazine.

Para especialistas externos, os resultados ampliam a compreensão sobre como fatores sociais podem influenciar transformações físicas em animais marinhos. Em entrevista à NPR, Theresa Rueger, ecologista da Universidade de Newcastle, que não participou da pesquisa, avaliou que as descobertas resultaram em “um artigo incrivelmente interessante”. “Você entende o lado ecológico da história, como os peixes vivem suas vidas”, acrescenta ela. “Mas você também aprende sobre os mecanismos que nos permitem entender como os animais mudam essas cores à medida que crescem.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.