Parasita que afeta cérebro de até um terço da população não está inativo como se acreditava
Durante décadas, os cistos de Toxoplasma gondii, que se alojam no cérebro, foram considerados inertes; novo estudo, no entanto, sugere o contrário

O Toxoplasma gondii, parasita que causa a toxoplasmose, infecta cerca de um terço da população mundial e possui a capacidade de persistir no organismo humano ao longo da vida, sendo que a contaminação geralmente ocorre por meio do consumo de carne malcozida ou pelo contato com solo e fezes de gatos portadores do parasita.
Embora o sistema imunológico frequentemente consiga controlar a fase inicial da infecção sem apresentar sintomas, o parasita não é eliminado completamente. Como explica o portal Galileu, após a infecção, o Toxoplasma gondii se aloja em cistos microscópicos, predominantemente no cérebro e nos músculos, onde permanece inacessível aos tratamentos convencionais.
Durante décadas, esses cistos foram considerados inertes, formados por parasitas dormentes, uma concepção que influenciou as estratégias terapêuticas desenvolvidas até o momento. No entanto, uma pesquisa recente realizada por cientistas da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, sugere que essa visão pode estar equivocada. Os achados foram divulgados em um artigo publicado na revista Nature Communications no último dia 24.
Analisando amostras
A equipe de pesquisadores examinou amostras de parasitas extraídos diretamente de cistos em tecidos vivos e descobriu uma organização interna surpreendente. Utilizando sequenciamento de RNA em célula única, identificaram múltiplos subtipos de bradizoítos dentro dos cistos, todos pertencentes à fase crônica da infecção, mas com funções biológicas distintas.
Os dados coletados revelam que esses subtipos não coexistem aleatoriamente; há uma clara divisão funcional entre eles. Alguns parasitas estão adaptados para a manutenção a longo prazo dentro do hospedeiro, enquanto outros são especializados na transmissão entre hospedeiros ou estão prontos para se reativar caso haja alterações nas condições imunológicas. Dessa maneira, os cistos deixam de ser considerados meros refúgios passivos e passam a ser vistos como estruturas dinâmicas que respondem às pressões do ambiente interno.
Formação dos cistos
A formação dos cistos ocorre progressivamente à medida que o sistema imunológico limita a multiplicação do parasita. Cada cisto é envolto por uma camada protetora e pode conter centenas de bradizoítos. Com dimensões que podem atingir 80 micrômetros, essas estruturas são consideradas grandes em comparação com patógenos intracelulares e são frequentemente encontradas em neurônios, além de músculos esqueléticos e cardíacos.
A nova organização interna dos cistos ajuda a entender por que a toxoplasmose pode se agravar sob certas circunstâncias. Quando há um desequilíbrio no sistema imunológico, os subtipos de bradizoítos preparados para reativação podem se transformar em taquizoítos, a forma do parasita responsável pela rápida multiplicação. Esse fenômeno permite que a infecção se espalhe novamente pelo corpo, podendo resultar em encefalite toxoplásmica ou lesões oculares que ameaçam a visão.
Tratamentos
A descoberta também lança luz sobre as limitações dos tratamentos atualmente disponíveis. Os medicamentos existentes atuam apenas sobre os taquizoítos e são eficazes no controle da fase aguda da doença, mas não impactam os cistos.
Ao considerar essas estruturas como populações homogêneas e inativas, esforços anteriores no desenvolvimento de fármacos negligenciaram a diversidade funcional agora evidenciada. Para os autores do estudo, compreender quais subtipos dentro dos cistos estão associados à reativação pode abrir novas possibilidades para terapias mais direcionadas e potencialmente capazes de interromper a infecção crônica.
Emma Wilson, principal pesquisadora do estudo, ressalta que os resultados exigem uma reavaliação do modelo tradicional do ciclo de vida do Toxoplasma gondii, que era visto como uma alternância simples entre fases ativa e latente. “O cisto deve ser entendido como o ponto central de controle do parasita”, afirma em comunicado oficial.