Paleo-inuítes alcançaram ilhas remotas da Groenlândia há 4500 anos
Segundo novo estudo, os primeiros povos do Ártico, os chamados paleo-inuítes, atravessaram mares gelados para acessar recursos vitais presentes em ilhas remotas da Groenlândia

Povos paleo-inuítes alcançaram ilhas extremamente remotas no Alto Ártico, ao longo da costa noroeste da Groenlândia, há cerca de 4.500 anos, de acordo com um novo estudo que identificou evidências de ocupação humana pré-histórica na região.
Esses primeiros habitantes do Ártico dominavam tecnologias avançadas de navegação e possuíam notáveis habilidades marítimas, o que lhes permitiu atravessar repetidas vezes trechos perigosos de mar aberto para acessar recursos marinhos essenciais à sobrevivência.
O arquipélago de Kitsissut, também conhecido como Ilhas Carey, marca o ponto mais ocidental da Groenlândia. Formado por seis pequenas ilhas, o conjunto está inserido em uma polínia, uma área semipermanente de águas abertas cercadas por gelo marinho e reconhecida por sua alta produtividade ecológica. Inuit contemporâneos já identificavam Kitsissut como um local estratégico para a caça de aves marinhas e coleta de ovos, o que levou arqueólogos a investigar a possibilidade de ocupações humanas antigas.
Estruturas encontradas
Em um estudo publicado nesta segunda-feira, 9, na revista Antiquity, os pesquisadores apresentaram os resultados de levantamentos realizados em três das ilhas do arquipélago. Segundo o portal Live Science, foram registradas quase 300 feições arqueológicas, sendo a maior concentração composta por 15 estruturas habitacionais paleo-inuítes localizadas na extremidade da Ilha Isbjørne. A quantidade de moradias indica que a travessia desde o continente da Groenlândia até Kitsissut ocorreu de forma recorrente, e não ocasional.
As habitações foram identificadas por meio de anéis de pedras, que indicam a antiga presença de tendas com fogueiras centrais. A análise de um osso animal encontrado em um desses círculos permitiu datar a ocupação entre 4.000 e 4.475 anos atrás.
“Em uma perspectiva regional, são muitos anéis de tenda em um só lugar, de fato uma das maiores concentrações”, afirmou o autor principal do estudo, Matthew Walls, arqueólogo da Universidade de Calgary, ao Live Science. Para ele, os dados indicam que Kitsissut e a polínia funcionavam como um “local de retorno”, frequentado repetidamente por diferentes grupos. “Não foi só uma visita isolada de uma família que saiu do caminho, por exemplo”, explicou.
Ainda não se sabe com precisão como os paleo-inuítes realizavam a travessia, mas a menor distância entre o continente e a Ilha Isbjørne é de cerca de 53 quilômetros. A viagem pelo mar aberto, vale destacar, envolve ventos imprevisíveis, neblina densa e correntes fortes e instáveis, um percurso extremamente arriscado, que teria levado aproximadamente 12 horas em embarcações com estrutura de madeira revestida de pele, típicas desses povos.
“Eles quase certamente estão visitando durante a estação quente, que não dura muito”, afirmou Walls. “As condições de viagem também tornam muito provável que estejam fazendo isso no breve verão.”
Atividades em Kitsissut
Os pesquisadores acreditam que os paleo-inuítes se deslocavam até Kitsissut principalmente para caçar e coletar ovos do murre-de-bico-grosso (Uria lomvia), uma ave marinha polar que forma grandes colônias de nidificação no verão. As estruturas habitacionais encontradas ficam diretamente abaixo dos penhascos onde essas aves se reproduzem, e grandes quantidades de ossos de murre foram localizadas ao redor dos anéis de pedra.
“O número de anéis dá a sensação de que é uma comunidade inteira fazendo a travessia, e não um pequeno grupo de caça”, disse Walls, ressaltando que futuras escavações poderão fornecer uma compreensão mais detalhada da organização social desses povos.
A capacidade dos paleo-inuítes de navegar longas distâncias em águas geladas, utilizando embarcações semelhantes a caiaques, evidencia não apenas sua profunda ligação com um modo de vida marítimo, mas também um alto grau de sofisticação tecnológica e conhecimento náutico, segundo os pesquisadores.
“Os arqueólogos tendem a pensar na área como uma encruzilhada, ou principalmente como uma rota de movimento entre o Canadá e a Groenlândia”, observou Walls. No entanto, Kitsissut e a polinia são “melhor enquadrados como um lugar de inovação.”