O Predador de Sevilha: como Manuel Blanco foi condenado?
Caso que inspirou documentário da Netflix revela uma década de acusações, mobilização de vítimas nas redes e uma longa batalha judicial

O caso de Manuel Blanco Vela, conhecido como o “predador de Sevilha”, tornou-se um dos episódios criminais mais chocantes envolvendo estudantes estrangeiras na Europa. Ex-guia turístico espanhol e fundador da empresa Discover Excursions, ele foi acusado por diversas mulheres — principalmente estudantes americanas em intercâmbio — de usar sua posição de confiança para atrair vítimas durante viagens organizadas entre Espanha, Portugal e Marrocos. As denúncias, que se estendem por mais de uma década, ganharam repercussão internacional após uma sobrevivente tornar pública sua história, desencadeando uma onda de relatos semelhantes e, anos depois, uma condenação judicial.
Os crimes do predador de Sevilha
A virada do caso ocorreu em 2017, quando a estudante americana Gabrielle Vega decidiu expor publicamente a agressão que afirma ter sofrido em 2013, durante uma viagem a Tânger, no Marrocos. Segundo seu relato, Blanco Vela teria dopado a jovem antes de cometer o abuso.
Poucos dias após a publicação do depoimento nas redes sociais, outras mulheres passaram a entrar em contato, descrevendo episódios com padrões semelhantes. O número de acusações cresceu rapidamente, formando uma rede de vítimas que, espalhadas entre Estados Unidos e Europa, encontravam dificuldades para acionar a Justiça espanhola.
A investigação formal teve início em 2018 na Audiencia Nacional, o tribunal superior da Espanha responsável por casos de grande complexidade. O processo, no entanto, avançou lentamente por causa da necessidade de colher depoimentos internacionais, muitos deles por videoconferência.
Apenas em 2025 o julgamento foi concluído. Blanco Vela foi considerado culpado por três agressões sexuais cometidas contra estudantes americanas: Gabrielle Vega, Hayley McAleese e Carly Van Ostenbridge. A sentença fixou pena de oito anos e meio de prisão, somando seis anos por um dos casos e mais dois anos e meio pelos demais.
Apesar da condenação, o desfecho judicial gerou controvérsia. Uma semana após a sentença, a Justiça espanhola concedeu liberdade provisória ao réu enquanto o processo seguia em fase de recursos. As autoridades determinaram a retenção de seu passaporte, proibição de deixar o país e comparecimento semanal ao tribunal.
A decisão provocou forte reação entre vítimas e organizações de apoio, que viam na medida um contraste com a gravidade das acusações. Ainda assim, a condenação foi considerada um marco simbólico para as sobreviventes, sobretudo pela dificuldade histórica de responsabilização em crimes cometidos contra estudantes estrangeiras.
O caso voltou ao centro do debate público com o lançamento da docussérie “O Predador de Sevilha”, da Netflix, que reconstrói os relatos das vítimas e a mobilização coletiva que levou ao julgamento. A produção reforça não apenas a dimensão criminal do episódio, mas também a força da articulação entre mulheres que, durante anos, transformaram trauma em denúncia e pressão por justiça.