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Núbios tatuavam crianças pequenas há 1.400 anos; mas por quê?

Na Núbia, dezenas de múmias de crianças foram encontradas com tatuagens faciais; agora, arqueólogos tentam descobrir o motivo por trás disso

Reconstrução artística de criança núbia com tatuagem na testa / Crédito: Divulgação/UMSL/Mary Nguyen

Arqueólogos fizeram uma descoberta surpreendente ao encontrar tatuagens faciais em crianças com apenas 18 meses de idade, datando de aproximadamente 1.400 anos atrás, na região do Vale do Nilo, atualmente no Sudão. A prática ocorreu em um período que coincide com a introdução do Cristianismo na área histórica conhecida como Núbia.

A autora principal do estudo, Anne Austin, arqueóloga da Universidade de Missouri-St. Louis, afirmou ao Live Science que “se as tatuagens fossem um símbolo da fé cristã de quem as usava, então poderia ter sido importante para os pais criar maneiras permanentes de marcar seus filhos como cristãos“. Essa pesquisa foi publicada em 15 de dezembro na revista PNAS.

A equipe de pesquisa analisou 1.048 restos humanos mumificados provenientes de três sítios arqueológicos na atualidade sudanesa, registrando evidências de tatuagens em 27 indivíduos de diversas idades e gêneros. Os resultados revelaram a presença significativa de tatuagens no local conhecido como Kulubnarti, datado entre os anos 650 e 1000 d.C.

Para a identificação das tatuagens, os pesquisadores utilizaram técnicas avançadas de microscopia com iluminação infravermelha, que permite visualizar marcas quase invisíveis a olho nu. Essa abordagem revelou que 17 indivíduos apresentavam tatuagens definitivas e outros seis poderiam ter marcas desbotadas.

Entre os sepultados em Kulubnarti, a maioria dos tatuados eram crianças com menos de 11 anos. A investigação revelou um caso notável: uma menina de três anos tinha uma tatuagem posicionada diretamente sobre outra, indicando que as crianças poderiam ser tatuadas repetidamente. Os desenhos eram formados por pontos e traços agrupados, sendo o padrão mais comum quatro pontos dispostos em forma de diamante na testa, o que poderia simbolizar uma cruz cristã.

Reconstrução artística de tatuagem núbia em mão / Crédito: Divulgação/UMSL/Mary Nguyen

Significado

Austin sugeriu que essa prática poderia estar relacionada a um ritual semelhante ao batismo, caso as tatuagens fossem utilizadas como sinal de Cristianismo no contexto de Kulubnarti. No entanto, os pesquisadores também estão explorando a possibilidade de que essas tatuagens tivessem propósitos protetores ou médicos.

De acordo com Austin, “se os pais tatuavam seus filhos para protegê-los ou por razões médicas, então talvez a alta taxa de tatuagens em crianças pequenas mostre que as pessoas em Kulubnarti enfrentavam níveis excepcionalmente altos de problemas de saúde”. As tatuagens na testa poderiam estar ligadas a tentativas dos pais em proteger as crianças contra dores de cabeça ou febres altas, frequentemente associadas à malária, uma doença endêmica na região do Vale do Nilo.

A pesquisa também sugere que os núbios utilizavam facas em vez de agulhas para realizar as tatuagens, com base nas características das marcas observadas, repercute o Live Science. Mesmo que as tatuagens tenham sido meramente decorativas, Austin enfatiza que não se deve julgar os costumes das sociedades passadas com um olhar crítico contemporâneo.

“O tipo de tatuagem praticado em Kulubnarti — que poderia ter sido feito com bastante rapidez — não parece ser mais extremo do que furar as orelhas de uma criança pequena ou circuncidar bebês recém-nascidos”, concluiu Austin.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.