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Mulher forçada a casar aos 12 anos que assassinou marido abusivo escapa de execução no Irã

Hoje com 25 anos, Goli Kouhkan está presa desde os 18 por assassinar seu marido abusivo; agora, ela escapou da execução após pagamento de indenização

Ilustração relacionada às mulheres executadas no Irã / Crédito: Divulgação/Centro de Direitos Humanos do Irã

Uma jovem conhecida como Goli Kouhkan, de 25 anos, teve sua vida poupada no Irã após a família de seu falecido marido concordar em perdoá-la. A decisão ocorreu em meio a um contexto legal que exigia o pagamento de uma quantia equivalente a cerca de £ 70.000 (quase R$ 508.000, na cotação atual) como compensação.

Goli esteve detida no corredor da morte na prisão central de Gorgan, no norte do Irã, por sete anos, desde que foi presa aos 18 anos por supostamente participar da morte de seu marido, Alireza Abil, em maio de 2018. Ela foi condenada sob a lei do qisas, que prevê retribuição em casos de homicídio.

A especialista da ONU em direitos humanos no Irã, Mai Sato, comentou sobre o caso ao The Guardian: “É ótimo que Kouhkan não seja executada — uma vida foi salva… mas isso não resolve a questão da lei qisas, que viola muitos padrões internacionais.” Sato e outros três especialistas da ONU observaram que o caso “exemplifica o viés de gênero sistêmico enfrentado por mulheres vítimas de casamento infantil e violência doméstica no sistema de justiça criminal do Irã”.

O jornal Guardian revelou que Kouhkan, integrante da minoria Baluch do Irã e sem documentação, enfrentava a pena de morte por enforcamento a menos que conseguisse levantar 10 bilhões de tomans (aproximadamente £80.000) para pagar à família da vítima. A legislação iraniana permite que a família da vítima perdoe alguém em troca de uma compensação financeira.

Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor da organização Iran Human Rights, destacou em declaração anterior que “o valor da indenização estipulado para o caso dela é várias vezes superior ao valor oficial, uma quantia impossível para uma jovem balúchi sem documentos, de origem humilde e que também foi rejeitada pela família”.

Entenda o caso

Kouhkan foi forçada a se casar com seu primo aos 12 anos e engravidou aos 13. Durante anos, sofreu abusos físicos e emocionais. No dia da morte do marido, ela encontrou Alireza agredindo seu filho de cinco anos. Ao buscar ajuda com um primo dele, Mohammad Abil, uma briga irrompeu, resultando na morte de Alireza. Atualmente, Abil também está no corredor da morte, repercute o The Guardian.

Recentemente, o advogado de Kouhkan confirmou nas redes sociais que o montante original foi reduzido para 8 bilhões de tomans e que esse valor havia sido arrecadado através de doações. Em um vídeo divulgado pela Mizan News Agency, os pais do marido dela assinam documentos relacionados ao perdão.

De acordo com Mehdi Ghatei, fundador da Qasim Child Foundation — uma instituição registrada na Austrália — Kouhkan espera se reunir com seu filho após ser libertada. Conforme a legislação iraniana, o filho dela tem direito a 2 bilhões de tomans desse total como parte da compensação, o que representa uma quantia significativa para recomeçar sua vida.

Ghatei relatou ter recebido apoio de diversas organizações e indivíduos ao redor do mundo após a publicação da matéria pelo Guardian sobre Kouhkan e ressaltou que a pressão internacional foi crucial para salvar sua vida. “O regime iraniano tenta silenciar as pessoas. Quando as pessoas começam a conscientizar [sobre casos como o de Kouhkan], às vezes há uma enorme pressão de órgãos internacionais, o que aumenta as chances de impedir execuções. O papel da grande mídia é enorme neste caso, inacreditável”, declarou.

Vale mencionar que, entre 2010 e 2024, ao menos 241 mulheres foram executadas no Irã; das quais 114 receberam pena por qisas devido a homicídios. A maioria das mulheres condenadas por homicídio nesse período havia matado seus maridos ou parceiros íntimos, frequentemente em situações relacionadas à violência doméstica ou defesa própria.

Dados indicam que o Irã lidera o número mundial de execuções femininas. A Anistia Internacional registrou ao menos 30 mulheres executadas no país apenas no ano passado. Até agora, em 2025, pelo menos 42 mulheres foram executadas — das quais, 18 por assassinato dos maridos, incluindo duas jovens forçadas ao matrimônio.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.