Notícias / Arqueologia

Mula mais antiga da Europa é achada em cova ibérica

Análises revelam que um sepultamento ibérico guardava a mula mais antiga da Europa Ocidental, antecipando em séculos a hibridização de equídeos na região

Mandíbula da mula analisada, mostrando vistas labial e lingual com áreas que apresentam alterações ósseas / Créditos: S. Albizuri et al., Journal of Archaeological Science: Reports

Uma pesquisa recém-publicada pode antecipar em vários séculos a prática de hibridização entre éguas e burros na Europa Ocidental. Divulgado no Journal of Archaeological Science: Reports, o estudo reuniu datação por radiocarbono, DNA antigo, análises zooarqueológicas e isótopos estáveis.

Análises realizadas no sítio funerário ibérico da Idade do Ferro de Hort d’en Grimau, na Península Ibérica, identificaram o que é considerado hoje o exemplar mais antigo de mula já registrado na região. As técnicas aplicadas confirmaram que o animal viveu entre os séculos 8 e 6 a.C.

Sepultamento incomum

Encontrado em uma cova reutilizada, o equídeo estava ao lado de ossos parcialmente queimados de uma mulher. Esse tipo de associação funerária é incomum e aparece apenas nas fases iniciais da Idade do Ferro no nordeste da Península Ibérica.

Equídeo encontrado em conexão anatômica na estrutura E10, acompanhado de desenho da vista superior do nível 1, com fragmentos cerâmicos destacados / Créditos: S. Albizuri et al., Journal of Archaeological Science: Reports

Com a reavaliação dos restos, escavados originalmente em 1986, os pesquisadores identificaram que a mula apresentava sinais de uso intenso, patologias típicas de idade avançada e uma dieta rica em cereais cultivados. Esses indícios sugerem que ela era manejada de forma cuidadosa, provavelmente mantida em estábulos e com significativo valor econômico para a comunidade.

Influência fenícia

Essa descoberta pode reforçar a influência fenícia na região, já que esses povos introduziram burros domésticos e rotas comercias  que poderiam ter difundido o conhecimento sobre cruzamento de equídeos, prática muito comum no Oriente Próximo. Além disso, segundo informações da revista Archaeology News, não se sabe se a mula foi criada localmente.

Ela pode ter sido resultado do cruzamento entre cavalos ibéricos e burros recém-chegados pelos fenícios, mas também é possível que já tivesse sido trazida para a Península Ibérica como um híbrido pronto. Pesquisas genéticas e isotópicas em andamento devem ajudar a esclarecer essa origem, comparando o exemplar a populações do Levante, do Norte da África e de outras regiões da Europa.

Esses achados ampliam a compreensão sobre a criação de animais híbridos na Europa e oferecem novos indícios sobre práticas econômicas, contatos culturais de longa distância e rituais funerários da Idade do Ferro. Além disso, demonstram que a hibridização equina ocorreu muito antes da influência romana no continente.