Mors Imperator: polêmica pintura do século 19 volta a Berlim após 100 anos
Obra 'Mors Imperator', rejeitada em 1887 por suspeita de sátira ao imperador alemão, retornou a Berlim e ganha nova exposição após mais de um século

Uma pintura que provocou controvérsia na Alemanha do século 19 volta a ganhar destaque mais de um século depois. A obra ‘Mors Imperator’, criada em 1887 pela artista Hermione von Preuschen, passou a integrar uma nova exposição na Alte Nationalgalerie, em Berlim, onde ficará em exibição até meados de novembro.
A pintura, de grandes dimensões, apresenta um esqueleto coroado e envolto em um manto, dominando simbolicamente o mundo ao derrubar um trono real. A proposta da artista era representar a transitoriedade do poder e da fama. No entanto, à época de sua criação, autoridades interpretaram a obra como uma possível sátira ao então imperador Guilherme I, que havia completado 90 anos. Por esse motivo, a Academia de Artes de Berlim recusou a inscrição do trabalho em sua exposição anual de 1887.
A rejeição gerou forte repercussão na época. Impedida de exibir a obra na instituição oficial, von Preuschen organizou uma mostra independente em uma loja no centro da cidade, onde a pintura era revelada ao público de forma dramática, atrás de cortinas. Mesmo com cobrança de ingresso, a exibição atraiu grande atenção e transformou o episódio em um dos assuntos mais comentados da sociedade berlinense, projetando a artista nacionalmente, repercute o The Guardian.
Apesar das suspeitas iniciais, estudos posteriores indicam que não havia intenção política direta na obra. Segundo a historiadora da arte Birgit Verwiebe, “Hermione von Preuschen era ousada, tinha muita autoconfiança e foi uma das primeiras defensoras da emancipação feminina”. Ela destacou ainda que a pintora “não era uma pessoa política e não há registros de que tivesse quaisquer instintos antimonárquicos. Afinal, ela própria vinha da nobreza.” Análises da pintura também não identificaram símbolos que associassem diretamente a figura retratada ao imperador, sendo elementos como o brasão e a coroa considerados criações artísticas ou inspirados em referências estrangeiras.
Trajetória da obra
Inicialmente concebida como parte de uma série maior sobre temas como vida, morte e amor, ‘Mors Imperator’ deveria dialogar com outra obra intitulada ‘Regina Vitae’, que não foi concluída a tempo. Após a rejeição, a artista chegou a escrever ao imperador para esclarecer suas intenções, recebendo como resposta que não havia objeções por parte do monarca e que a avaliação caberia ao mérito artístico. Ainda assim, a academia manteve sua decisão, classificando a pintura como “a expressão não artística de um pensamento distorcido”.
Com o passar dos anos, a obra foi vendida a um colecionador suíço e, posteriormente, parte do acervo da artista foi doada a um museu em Berlim. Agora, ao ser exibida em uma instituição estatal de destaque, a pintura retorna ao centro do debate sobre arte, poder e interpretação.
A mensagem central da obra — a supremacia da morte sobre qualquer autoridade terrena — acabou ganhando um contorno simbólico adicional. Pouco tempo após a conclusão da pintura, Guilherme I morreu, em 1888, ano que ficaria conhecido na Alemanha como o “Ano dos Três Imperadores”, marcado por sucessões rápidas no trono.