Monstro marinho ganha novo retrato após 90 anos de mistério
Análise inédita revela que o temido Dunkleosteus tinha crânio mais flexível, músculos semelhantes aos de tubarões e lâminas ósseas únicas

O Dunkleosteus terrelli, um dos fósseis mais famosos do planeta, acaba de ganhar uma nova interpretação científica. O peixe blindado de mais de quatro metros, que dominou os mares do Devoniano Superior há 360 milhões de anos, foi finalmente revisitado por especialistas após quase um século sem análises detalhadas.
Agora, um estudo liderado pela Case Western Reserve University e publicado na The Anatomical Record oferece a visão mais completa já feita sobre sua anatomia. A pesquisa revê a estrutura do crânio, da mandíbula e reposiciona o predador na árvore evolutiva dos artrodiros, grupo de peixes de armadura óssea.
Na época em que viveu, a região que hoje corresponde a Cleveland, nos Estados Unidos, era coberta por mares rasos ricos em vida. Nesse cenário, o “Dunk” reinava como um predador de topo, equipado com lâminas ósseas afiadas que substituíam dentes e arrancavam grandes pedaços de suas presas.
Essas características o tornaram estrela de museus e livros de paleontologia. Contudo, ele havia sido pouco estudado desde 1932, quando a última grande análise anatômica foi publicada. Por décadas, modelos biomecânicos dominaram as pesquisas, mas quase nenhum cientista voltou aos fósseis para examinar o que os ossos realmente revelavam.
Fósseis raros
A preservação incompleta dificultava o trabalho. Assim como nos tubarões modernos, grande parte do corpo do D. terrelli era composta por cartilagem — material que raramente fossiliza. Porém, o Museu de História Natural de Cleveland abriga a maior coleção do mundo desse animal, permitindo aos pesquisadores reavaliar dezenas de exemplares com técnicas modernas.
Segundo a ‘Revista Galileu’, o resultado surpreendeu. A equipe identificou três pontos-chave que transformam a forma como entendemos o predador.
Quase metade do crânio do Dunkleosteus era feita de cartilagem. Esse achado inclui áreas cruciais, como articulações da mandíbula e pontos de inserção muscular. A descoberta sugere que a cabeça do animal era mais flexível e complexa do que o estimado anteriormente, alterando conceitos sobre sua mordida poderosa.
Os pesquisadores encontraram um grande canal ósseo que abriga musculatura parecida com a de tubarões e raias atuais. Segundo o paleobiólogo Russell Engelman, autor principal do estudo, essa é uma das melhores evidências desse tipo de musculatura em peixes do Devoniano. A semelhança aprofunda o entendimento sobre como o predador capturava presas grandes com precisão.
Outro ponto crucial mostra que as lâminas ósseas do Dunkleosteus — muitas vezes tratadas como dentes — surgiram de forma independente. Enquanto vários artrodiros tinham dentes verdadeiros, o D. terrelli e seus parentes os perderam ao longo da evolução. As lâminas apareceram como uma solução própria para dominar presas grandes, um caminho distinto dentro do grupo.