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Mistério das faixas negras em Marte é resolvido após décadas

Novo estudo revela que as "estrias de encosta" não são causadas por água ou impactos de meteoroides, como se acreditava

Existem 2 milhões de faixas negras em Marte - NASA

Por décadas, cientistas tentaram decifrar a origem de milhões de faixas negras que cobrem encostas rochosas em Marte. Agora, uma nova pesquisa publicada na revista Nature Communications oferece a explicação mais convincente até o momento: as chamadas “estrias de encosta” são resultado da ação do vento e da poeira, e não de processos envolvendo água ou impactos de meteoroides.

As estrias, descobertas nos anos 1970, aparecem em encostas íngremes de crateras, montes e vulcões por todo o Planeta Vermelho. Inicialmente, os cientistas acreditavam que fossem causadas pelo derretimento de gelo subterrâneo e consequentes deslizamentos de terra.

Mais tarde, hipóteses apontaram para impactos de rochas espaciais e tremores marcianos. Mas a análise conduzida por Valentin Bickel, cientista planetário da Universidade de Berna, na Suíça, mudou o rumo das investigações.

O estudo analisou cerca de 2,1 milhões de imagens capturadas pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter da NASA entre 2006 e 2024. Os dados mostraram que quase todas as novas estrias surgem por erosão sazonal causada pelo vento, que remove camadas de poeira superficial e escurece o terreno.

A dinâmica da poeira, do vento e da areia parece ser o principal fator sazonal na formação das estrias”, afirmou Bickel. Ele estima que menos de 0,1% dessas formações sejam provocadas por impactos ou sismos.

As estrias

As estrias se concentram em cinco grandes regiões de Marte e aparecem com maior frequência durante períodos de ventos fortes, quando a velocidade supera o limite necessário para a mobilização da poeira. Esse processo é semelhante à formação dos “redemoinhos de poeira” — mini-tornados marcianos observados em várias missões.

Segundo o ‘Live Science’, a razão pela qual o mistério levou tanto tempo para ser resolvido pode estar na hora do dia em que as estrias se formam.

Segundo o estudo, os fenômenos ocorrem preferencialmente ao amanhecer e ao entardecer, quando a iluminação é fraca, o que dificultou a observação direta pelos orbitadores.

A pesquisa também indica que cerca de 80 mil novas estrias surgem a cada ano, e que a maioria delas permanece visível por décadas antes de desaparecer.

Embora cubram menos de 0,1% da superfície marciana, essas faixas podem ser a maior fonte de poeira atmosférica do planeta, desempenhando papel essencial no ciclo climático e nos desafios que futuras colônias humanas enfrentarão.

“Essas observações podem levar a uma melhor compreensão do que acontece em Marte hoje”, afirmou Colin Wilson, cientista do projeto ExoMars Trace Gas Orbiter da Agência Espacial Europeia, que não participou do estudo. “Obter observações contínuas e em escala global é essencial para revelar um Marte dinâmico e em constante transformação”.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli