Mercúrio apresenta sinais inéditos de atividade geológica
Novo estudo revela que Mercúrio, o planeta mais próximo ao Sol de nosso sistema solar, possui evidências de que é geologicamente ativo; entenda!

Uma pesquisa recente publicada nesta terça-feira, 27, na revista Nature Communications Earth & Environment indica que o planeta Mercúrio, o mais próximo do Sol de nosso sistema solar, é geologicamente ativo, uma descoberta surpreendente e que vem desafiando as concepções tradicionais entre a comunidade científica.
Mercúrio, que possui aproximadamente metade da massa de Marte e um tamanho similar ao da Lua, é caracterizado por uma superfície repleta de crateras, constantemente exposta à intensa radiação solar. Durante muitos anos, acreditava-se que sua crosta fosse praticamente inativa do ponto de vista geológico, levando os cientistas a considerá-lo um planeta seco e praticamente morto.
Contudo, a nova pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Berna, na Suíça, juntamente com o NCCR PlanetS, trouxe à luz um novo entendimento sobre o planeta. Os pesquisadores analisaram as linhas, ou “estrias”, que cortam encostas e crateras em Mercúrio.
A análise da distribuição e abundância dessas linhas oferece percepções valiosas sobre a dinâmica geológica deste corpo celeste intrigante. Agora, através de técnicas avançadas de machine learning, a equipe elaborou um inventário sistemático das formações mercurianas.
Estudos anteriores não haviam mapeado essas estruturas de forma abrangente. Segundo Valentin Bickel, da Universidade de Berna, em comunicado, “com a análise de imagem, conseguimos criar o primeiro censo, [o primeiro] inventário sistemático, das estrias de declive em Mercúrio“. A pesquisa revelou que essas marcas brilhantes foram provavelmente originadas pela liberação de gases do interior do planeta, como enxofre e outros elementos químicos, que emergiram por fissuras e bordas de crateras.
A equipe utilizou cerca de 100 mil imagens coletadas pela sonda MESSENGER da NASA, que operou entre 2011 e 2015, para mapear a morfologia e distribuição de aproximadamente 400 faixas brilhantes no planeta. Inicialmente conhecidas apenas em número reduzido, essas estrias agora têm um registro mais preciso.
Os dados revelaram que as linhas tendem a aparecer nas encostas voltadas para o Sol das crateras mais jovens. Bickel destacou que isso sugere uma interação entre a atividade geológica do planeta e os efeitos da radiação solar e calor na liberação dos voláteis armazenados no interior do mesmo.
“A maioria das estrias parece originar-se de depressões brilhantes, as chamadas ‘cavidades’. Essas cavidades provavelmente também são formadas pela liberação de gases de material volátil e geralmente estão localizadas no interior raso ou ao longo das bordas de grandes crateras de impacto”, complementa Bickel.

Próximos passos
Essas novas descobertas são particularmente oportunas. Elas não apenas indicam uma “ressurreição” geológica em Mercúrio, mas também servirão como base para futuras missões espaciais. A missão BepiColombo, uma colaboração entre Europa e Japão, está programada para entrar em órbita ao redor de Mercúrio no final de 2027. Esta missão contará com duas sondas (Mercury Planetary Orbiter-MPO e Mercury Magnetosphere Orbiter-MMO) para mapear detalhadamente a superfície do planeta.
Entre os instrumentos da BepiColombo está o altímetro a laser BELA (BepiColombo Laser Altimeter), que medirá a distância até a superfície com precisão de cerca de 10 centímetros a partir de uma altitude orbital de mil quilômetros. Esses dados serão essenciais para criar um modelo tridimensional detalhado da topografia mercuriana, conforme repercute a Revista Galileu.
A missão também permitirá uma reconstrução mais precisa dos processos geológicos presentes na superfície do planeta utilizando modelos existentes sobre deformação tectônica e composição superficial. O inventário realizado será utilizado para reexaminar áreas com estrias e determinar se surgiram novas linhas desde as observações feitas pela MESSENGER até as futuras imagens da BepiColombo.
Bickel conclui que “com essas investigações, queremos entender melhor os mecanismos de formação e o desenvolvimento temporal dessas estruturas e, assim, obter mais indícios do papel dos voláteis na condução da atividade geológica em Mercúrio”.