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Margaret Thatcher ignorou alerta de assassinato em viagem à França

Arquivos tornados públicos indicam que a “Dama de Ferro” manteve a agenda em Paris em 1982 mesmo após alertas formais de segurança

Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990 / Créditos: Getty Image

Documentos oficiais recentemente desclassificados revelam que Margaret Thatcher ignorou um alerta de alto risco de assassinato ao viajar para a França, em 1982, mesmo após advertências formais de autoridades de inteligência britânicas.

Na ocasião, a então primeira-ministra do Reino Unido tinha um encontro marcado com o presidente francês François Mitterrand, em Paris, no início de novembro daquele ano. A reunião previa discussões sobre o orçamento europeu, estratégias de defesa diante da União Soviética e os próximos passos do projeto do Túnel da Mancha.

Antes da cúpula, porém, o serviço de inteligência interno britânico, o MI5, soou o alarme. Segundo os documentos agora tornados públicos, os serviços de segurança avaliaram que a visita representava um risco significativo à vida da premiê, classificação considerada “substancial” em análises internas.

Violência em Paris

À época, Paris enfrentava uma escalada de violência. A capital francesa havia sido alvo de uma série de atentados atribuídos tanto a grupos terroristas do Oriente Médio quanto a organizações francesas de extrema-esquerda. Em menos de um ano, seis pessoas foram mortas a tiros em um restaurante judaico, um atentado a bomba em um trem deixou cinco mortos e um adido militar americano foi assassinado.

Além disso, o episódio mais recente havia ocorrido apenas dois meses antes da viagem de Thatcher. Em setembro de 1982, um carro-bomba explodiu na cidade e deixou mais de 50 feridos. As informações constam em documentos oficiais e foram repercutidas pelo jornal Daily Mail.

Alertas e avaliação de risco

Diante desse cenário, o então embaixador britânico na França, Sir John Fretwell, manifestou preocupação formal com a segurança da primeira-ministra. Em comunicação oficial, afirmou que o risco deveria ser avaliado “à luz dos recentes incidentes terroristas na cidade”.

Nos bastidores, ministros do gabinete trocaram correspondências urgentes nos dias que antecederam a viagem. Roger Bone, secretário particular do então chanceler Francis Pym, repassou o alerta a John Coles, responsável por assessorar Thatcher em assuntos de defesa e política externa. A partir disso, o Ministério das Relações Exteriores solicitou uma análise formal do MI5 sobre o risco envolvido na visita. O resultado manteve a avaliação de ameaça elevada e destacou que a ampla divulgação prévia da viagem poderia ampliar ainda mais o perigo.

Margaret Thatcher, Ronald Reagan, François Mitterrand e Helmut Schmidt durante a cúpula econômica do G7 em Versalhes, na França, em 1982 / Créditos: Getty Images

A avaliação foi compartilhada com a equipe de segurança pessoal da primeira-ministra e com a Embaixada Britânica em Paris. Um agente de proteção chegou a ser enviado antecipadamente à capital francesa para discutir o tema com autoridades locais. Ainda assim, a agenda foi mantida, e a reunião com Mitterrand ocorreu sem incidentes.

Outras tentativas contra Thatcher

Dois anos depois, porém, Thatcher seria alvo de uma tentativa real de assassinato em solo britânico. Em 1984, durante a conferência do Partido Conservador, uma bomba detonada pelo IRA no hotel Brighton Grand matou cinco pessoas e deixou 31 feridas. A primeira-ministra sobreviveu.

Já em 1989, durante uma missão diplomática na África, Thatcher voltou a enfrentar uma situação extrema. Segundo documentos revelados décadas depois, seu avião foi alvo de disparos de mísseis enquanto sobrevoava Moçambique. A aeronave conseguiu pousar em segurança no Malawi, episódio que a própria premiê mencionou brevemente em sua autobiografia, The Downing Street Years.