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Mansão usada para espionar nazistas na guerra vira museu em Londres

Antiga Trent Park House abrigou oficiais alemães durante a guerra enquanto agentes britânicos gravavam suas conversas em segredo

Trent Park House - Licença Wikimedia Commons/Poliphilo

Durante a Segunda Guerra Mundial, uma elegante mansão nos arredores de Londres serviu de palco para uma das mais engenhosas operações de inteligência britânicas. Sem saber, oficiais alemães de alta patente mantidos como prisioneiros de guerra viviam cercados por microfones ocultos que registravam todas as suas conversas. Agora, décadas após a operação permanecer em sigilo, o local foi transformado em museu.

Como repercutido pelo O Globo, a histórica Trent Park House foi aberta ao público neste mês, revelando um capítulo pouco conhecido da espionagem britânica durante o conflito. A operação permaneceu classificada até 1996 e, desde então, sua importância para o esforço de guerra passou a ser gradualmente reconhecida.

Uma mansão transformada em armadilha

Em maio de 1943, generais alemães capturados no Norte da África passaram a viver na ampla propriedade localizada em um subúrbio ao norte de Londres. A residência, cercada por cerca de 400 acres de parque, oferecia aos prisioneiros uma rotina confortável.

Eles permaneciam com seus uniformes, mantinham criados capturados ao seu lado, caminhavam pela floresta, frequentavam a biblioteca, jogavam bilhar e cartas e até colhiam cogumelos nos arredores da propriedade.

A aparente tranquilidade fazia parte da estratégia britânica. Convencidos de que eram tratados com respeito devido à posição militar que ocupavam, os oficiais conversavam livremente sobre operações, armamentos e planos da Alemanha nazista.

O que eles desconheciam era que praticamente toda a mansão havia sido equipada com uma sofisticada rede de microfones escondidos em luminárias, lareiras, vasos, árvores e estátuas. Os equipamentos estavam ligados a um centro subterrâneo instalado abaixo das salas principais da residência.

Informações valiosas para os Aliados

No esconderijo subterrâneo, equipes de “ouvintes” trabalhavam em turnos de dez a doze horas gravando, transcrevendo e traduzindo as conversas dos prisioneiros. A maioria desses profissionais era formada por refugiados judeus alemães, que repassavam as informações à inteligência militar britânica.

Segundo o museu, cerca de 40 ouvintes monitoraram conversas de 84 generais e 22 coronéis alemães capturados durante a guerra.

Entre os episódios mais importantes esteve uma conversa sobre o foguete V-2, considerado o primeiro míssil balístico de longo alcance do mundo desenvolvido pelos nazistas. As informações obtidas contribuíram para o bombardeio aliado contra Peenemünde, local onde os foguetes eram fabricados.

As gravações também forneceram detalhes sobre novas tecnologias militares, programas secretos de armas, estratégias de combate e informações relacionadas ao Holocausto. No entanto, para preservar o sigilo da operação, a inteligência britânica decidiu que os registros não seriam utilizados nos julgamentos de crimes de guerra realizados após o conflito.

De residência luxuosa a museu

Antes da guerra, Trent Park era a residência do político Philip Sassoon, herdeiro de uma influente família de comerciantes judeus iraquianos. Durante a década de 1920, ele transformou a propriedade em um luxuoso ponto de encontro da elite britânica.

A mansão recebeu figuras como Winston Churchill, Charlie Chaplin, Noël Coward, George Bernard Shaw e T. E. Lawrence.

Após a morte de Sassoon, em 1939, o governo britânico requisitou a propriedade. Sob coordenação do tenente-coronel Thomas Kendrick, o edifício recebeu tetos falsos, painéis ocultos, equipamentos de gravação e um complexo sistema de escuta que sustentaria uma das operações de inteligência mais bem-sucedidas da guerra.

Nas décadas seguintes, o imóvel teve diferentes usos, chegando a funcionar como faculdade de formação de professores e, posteriormente, integrar a Universidade de Middlesex. Em 2013, acabou sendo vendido a uma instituição de ensino superior da Malásia, que declarou falência pouco tempo depois.

A mobilização para preservar o patrimônio começou em 2014 e reuniu historiadores, pesquisadores e antigos participantes da operação. Após anos de campanha, foi firmado um acordo para transformar parte da mansão em museu.

Hoje, a Trent Park House of Secrets recria tanto os elegantes ambientes frequentados pelos oficiais alemães quanto os espaços subterrâneos onde trabalhavam os ouvintes responsáveis por registrar uma operação secreta que ajudou os Aliados durante a Segunda Guerra Mundial.


*Sob supervisão de Giovanna Gomes