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Por que um esqueleto milenar segurava um vaso de tartaruga em El Salvador?

Achado de 2,8 mil anos em Antiguo Cuscatlán sugere que povos antigos usavam objetos simbólicos para representar a passagem ao mundo dos mortos

Pequeno vaso de cerâmica da tradição Usulután em forma de tartaruga marinha, encontrado junto ao corpo de um indivíduo sepultado há cerca de 2,8 mil anos em El Salvador - Foto: Ministério da Cultura de El Salvador.

Uma descoberta arqueológica no sítio Pasaje 4, em Antiguo Cuscatlán, está revelando segredos sobre as crenças espirituais de civilizações que habitaram a Mesoamérica muito antes do apogeu da cultura maia. Pesquisadores encontraram um esqueleto datado de aproximadamente 2,8 mil anos em uma posição incomum: o corpo estava sepultado de bruços, com a face voltada para o solo, e segurava próximo à mão um pequeno vaso de cerâmica no formato de uma tartaruga marinha

Conforme o Ministério da Cultura de El Salvador, o achado pertence ao Período Pré-Clássico Médio, fase em que as comunidades da região começavam a se organizar em aldeias permanentes.

Restos humanos descobertos em El Salvador / Crédito: Divulgação/Handout/El Salvador’s Presidency Office

Marcas da vida antiga

Para além do túmulo, os arqueólogos identificaram indícios fascinantes do cotidiano daquela população. Foram encontrados sulcos utilizados para o cultivo de mandioca, preservados sob as mesmas camadas de cinzas vulcânicas que cobriram o corpo. 

De acordo com os registros oficiais, esses vestígios são fundamentais para ajudar a reconstruir a ocupação humana da região ao longo de séculos, demonstrando que as sociedades antigas já dominavam técnicas agrícolas complexas muito antes do que se imaginava. A existência desses campos de cultivo sugere que a área pode esconder um conjunto ainda maior de sepultamentos e até estruturas residenciais, indicando uma vila organizada.

Debate sobre sacrifícios

A nova evidência reacende uma discussão profunda entre especialistas sobre a natureza dos sepultamentos na Mesoamérica, região histórica que engloba o México e parte da América Central. Na década de 1970, o arqueólogo William Fowler escavou o sítio de Chalchuapa, onde encontrou 33 esqueletos que interpretou como prisioneiros de guerra sacrificados, pois muitos apresentavam indícios de estarem com membros amarrados. 

No entanto, essa visão vem sendo contestada por novas pesquisas. Em um estudo publicado em 2020, o próprio Carlos Flores Manzano questionou se todos esses casos seriam execuções rituais. Para o pesquisador, essas práticas podem estar ligadas a complexas concepções religiosas sobre o universo, e não necessariamente a mortes violentas.

Estrelas e o submundo

O significado por trás da cerâmica de tartaruga reforça essa nova linha de pensamento simbólico. Ao analisar a descoberta, o arqueólogo Carlos Flores Manzano, doutorando pela Universidade Yale, sugeriu que o rito pode ter conexões astronômicas: 

Em vez de estar ligada a sacrifícios, a posição incomum do sepultamento pode estar relacionada a uma antiga compreensão do cosmos e do submundo”, afirmou o especialista ao jornal Diario El Salvador

Segundo essa hipótese, a tartaruga estaria associada ao Cinturão de Órion, simbolizando a jornada sagrada das almas, uma crença que seria registrada formalmente pelos maias séculos depois, repercute a Revista Galileu.

Análises laboratoriais futuras

A preservação da ossada foi possível graças à erupção do vulcão Plan de la Laguna, ocorrida entre os anos 850 e 830 a.C., que selou o local sob cinzas. Agora, o esqueleto passará por testes de DNA e datação por radiocarbono — técnica que analisa átomos de carbono para precisar a idade de materiais orgânicos — visando identificar o sexo biológico e possíveis doenças. 

“Os trabalhos laboratoriais devem durar aproximadamente um ano”, declarou Carlos Flores Manzano. Somente após esse período será possível afirmar com segurança por que essa pessoa foi enterrada de bruços e qual era o verdadeiro papel simbólico do recipiente de tartaruga naquele cenário espiritual.


*Sob supervisão de Éric Moreira

Meu propósito é dar voz a narrativas.