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Lagos sob camada de gelo em Marte podem ter permanecido como água líquida, sugere estudo

Estudo recente sugere que os lagos de Marte poderiam ter permanecido como água líquida no passado, protegidos por uma fina camada de gelo sazonal, mesmo sob baixas temperaturas atmosféricas

Monte Olimpo, em Marte - Crédito: Divulgação/NASA

Um recente estudo conduzido pela Universidade Rice, no Texas, e publicado na revista AGU Advances, apresenta uma nova perspectiva sobre a presença de água em Marte. Os pesquisadores sugerem que pequenos lagos poderiam ter permanecido como água líquida no passado, protegidos por uma fina camada de gelo sazonal, mesmo diante das baixas temperaturas atmosféricas.

A pesquisa aborda uma antiga contradição nos modelos climáticos que retratam Marte como um corpo celeste predominantemente frio, em contraste com as evidências geológicas que indicam atividade hídrica prolongada. Elementos como sedimentos estratificados e antigos litorais marcam a presença histórica da água. Para os autores do estudo, a existência desses lagos não necessitaria de um aquecimento global significativo e poderia ter se estendido por várias décadas.

A principal autora da pesquisa, Eleanor Moreland, destaca que a ausência de evidências de gelo espesso nas bacias de Marte instigou suas reflexões. “Observar antigas bacias lacustres em Marte sem evidências de gelo duradouro me fez questionar se esses lagos poderiam ter retido água por mais de uma estação em um clima frio”, comentou a estudante de pós-graduação da Rice, conforme informações do portal O Globo.

Modelo adaptado

Para validar essa hipótese, a equipe implementou um modelo climático adaptado do desenvolvido para a Terra pela climatologista Sylvia Dee. Apesar da falta de registros naturais em Marte, como anéis de árvores ou núcleos de gelo, os pesquisadores utilizaram dados obtidos por robôs e interpretaram informações sobre rochas e minerais como representações indiretas do clima marciano antigo.

Após anos de aprimoramentos, o modelo denominado LakeM2ARS simulou as condições que prevaleciam há aproximadamente 3,6 bilhões de anos, levando em consideração fatores como radiação solar reduzida, altas concentrações de dióxido de carbono e padrões sazonais distintos dos encontrados na Terra. Um total de 64 simulações foi realizado com base em dados reais coletados pelo rover Curiosity da NASA na Cratera Gale.

Resultados

Os resultados das simulações revelaram que, em diversos cenários, a água poderia permanecer líquida sob uma camada fina de gelo, atuando como um isolante térmico. “Essa camada de gelo sazonal age como um cobertor natural para o lago”, afirmou Kirsten Siebach, professora associada da Rice e coautora do estudo. Ela acrescentou que o gelo diminuiria a evaporação durante o inverno e possibilitaria o derretimento parcial no verão, resultando em poucos vestígios permanentes.

Além de esclarecer a preservação notável dos leitos lacustres antigos, a pesquisa sugere que a ausência de geleiras visíveis não descarta a possibilidade da existência desses lagos. Publicado na AGU Advances, este trabalho representa um importante avanço na simulação de ambientes extraterrestres e fortalece a hipótese de que Marte pode ter sido mais hidrologicamente ativo do que anteriormente imaginado, mesmo sem nunca ter sido um planeta essencialmente quente.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.