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Inscrição grega em mesquita pode revelar localização de antigo templo perdido, na Síria

Texto grego encontrado na Grande Mesquita de Homs, na Síria, reforça a hipótese de que o Templo do Sol de Emesa esteja sob o edifício atual

Inscrição grega descoberta na Grande Mesquita de Homs, na Síria / Crédito: Divulgação/Teriz Lyoun

Trabalhos de restauração na Grande Mesquita de Homs, no oeste da Síria, trouxeram à tona uma inscrição grega que pode esclarecer uma das questões históricas mais debatidas da antiga cidade de Emesa. Esculpido na base de uma coluna de granito, o texto reacendeu a discussão sobre a possível localização do Templo do Sol sob o atual edifício islâmico.

A descoberta ocorreu durante escavações realizadas em 2016, mas conflitos na região atrasaram a análise detalhada do achado. A inscrição integra a base de uma coluna de aproximadamente um metro por um metro. O painel gravado ocupa cerca de 75 centímetros da face frontal da pedra e é delimitado por elementos decorativos. O texto aparece organizado em linhas horizontais regulares, com moldura superior, padrão característico de inscrições comemorativas formais.

A primeira tradução, divulgada no mesmo ano da escavação, descreveu um governante de perfil guerreiro, comparado ao vento, à tempestade e a um leopardo. O tom heroico e marcial do texto é acompanhado por particularidades linguísticas: o grego apresenta irregularidades gramaticais compatíveis com padrões observados na Síria sob domínio romano, onde o aramaico predominava na comunicação cotidiana. Essas marcas reforçam a hipótese de que a inscrição tenha origem local no período romano, e não seja resultado de reaproveitamento posterior.

O debate sobre a localização do Templo do Sol em Emesa não é recente. Historiadores discutem há décadas se a mesquita foi erguida sobre as ruínas do santuário dedicado ao deus solar Elagábalo. A relevância da questão ultrapassa a arqueologia local: o sumo sacerdote desse culto chegou ao trono romano em 218 d.C., governando com o nome de Elagábalo. Apesar de análises de textos antigos, moedas e vestígios arqueológicos dispersos, nenhuma evidência conclusiva havia solucionado a controvérsia.

Localização do templo perdido?

Em estudo publicado na revista Shedet, o professor Maamoun Saleh Abdulkarim, da Universidade de Sharjah, sustenta que a inscrição fortalece a hipótese de que o templo estaria situado sob a atual mesquita. O pesquisador examinou o conteúdo do texto em conjunto com a evolução arquitetônica do edifício e com registros de escavações anteriores. A interpretação sugere continuidade do espaço sagrado ao longo dos séculos, em vez de transferência para outro ponto do monte vizinho, onde hoje se encontra a Cidadela Islâmica.

O local ocupado pela Grande Mesquita concentra sucessivas camadas religiosas. A tradição menciona a existência de uma igreja dedicada a João Batista. No século 12, o governante Zengid Nur al-Din associou a mesquita ao seu poder, reforçando seu significado simbólico. Embora a planta retangular atual contraste com descrições de um antigo santuário de formato oval, a reutilização de fundações e materiais era prática recorrente na região.

Na Antiguidade, Emesa ocupava posição estratégica entre Antioquia, Damasco e rotas comerciais do Levante. Sob domínio romano, o culto a Heliogábalo estruturava a vida cívica. Festivais e autoridade política convergiam no templo, e o sacerdócio exercia influência incomum. Quando o jovem sacerdote Vário Ávito Bassiano tornou-se imperador, tentou elevar o deus solar sírio acima das divindades tradicionais de Roma. Apesar do reinado breve, o destaque do culto é amplamente documentado.

A partir do século 4, o cristianismo ganhou espaço na cidade de forma gradual, coexistindo por gerações com comunidades pagãs. Posteriormente, com a conquista islâmica, a igreja foi convertida em mesquita. Cronistas árabes registraram essa sequência, relatando a adaptação de estruturas sagradas anteriores, repercute o Archaeology News.

Ao situar a inscrição nesse contexto histórico prolongado, Abdulkarim argumenta que o achado reforça a ideia de sobreposição arquitetônica contínua. Se vinculada ao culto solar, a base da coluna pode indicar a planta do antigo santuário romano. Embora não encerre definitivamente o debate, a descoberta reduz as incertezas sobre a localização do templo, sugerindo que ele possa ter permanecido, ao longo dos séculos, sob o piso da atual mesquita, preservado em pedra sob sucessivas transformações religiosas.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.