Humanos tendem a caminhar em sentido anti-horário, diz estudo
Pesquisa identificou tendência global de caminhar em sentido anti-horário, mas cientistas ainda não sabem a causa; entenda!

Pesquisadores identificaram uma tendência recorrente entre seres humanos: ao caminhar livremente por um espaço, a maioria das pessoas prefere seguir no sentido anti-horário. Embora o comportamento tenha sido observado em diferentes países e contextos, os cientistas ainda não conseguiram determinar com precisão a origem do fenômeno.
A descoberta surgiu de forma inesperada durante a pandemia de Covid-19. Inicialmente, pesquisadores analisavam quantas pessoas poderiam compartilhar um mesmo ambiente mantendo o distanciamento social. Ao revisar as gravações dos experimentos, perceberam que grande parte dos participantes passava a circular em sentido anti-horário.
A observação levou ao desenvolvimento de uma nova linha de investigação. Em uma série de experimentos posteriores, indivíduos e pequenos grupos foram convidados a se deslocar por espaços fechados. Em diferentes testes, os pesquisadores registraram repetidamente a mesma preferência de movimento.
“Se você simplesmente pedir a alguém para começar a andar, seja em um museu, um supermercado ou mesmo uma sala vazia, é surpreendentemente provável que essa pessoa comece a andar no sentido anti-horário”, disse o Dr. Iñaki Echeverría Huarte, da Universidade de Navarra, na Espanha.
Para verificar se fatores culturais poderiam influenciar o comportamento, a equipe ampliou a pesquisa para o Japão em colaboração com o Dr. Claudio Feliciani, da Universidade de Tóquio. Os resultados encontrados foram semelhantes aos observados na Espanha.
A tendência permaneceu independentemente de características como dominância da mão, do pé ou do olho direito, além de ter sido identificada tanto entre homens quanto entre mulheres. Segundo os pesquisadores, a única diferença observada foi uma inclinação mais forte para o comportamento entre crianças.
“Cada um de nós possui uma pequena tendência pessoal a se inclinar ligeiramente para um lado, e quando muitas pessoas compartilham um espaço, essas pequenas tendências se somam, resultando em uma rotação líquida no sentido anti-horário”, disse Echeverría Huarte. Os resultados foram publicados na revista Nature Communications.
Por que isso acontece?
Apesar das evidências, os cientistas ainda não sabem exatamente o que provoca o fenômeno. Novos testes foram realizados utilizando ambientes de realidade virtual e simulações em que participantes fingiam ter uma perna quebrada, mas nenhuma hipótese foi capaz de explicar definitivamente o comportamento.
“Não sabemos por que isso acontece, mas acreditamos que, ao entendermos os motivos, poderemos compreender melhor como percebemos o mundo”, disse Feliciani. “Isso pode nos ajudar a fazer outras descobertas que talvez sejam ainda mais importantes do que esta.”
A tendência não parece ser exclusiva dos humanos. Pesquisas anteriores conduzidas em Bristol mostraram que formigas-rocha também apresentam preferência por virar à esquerda ao explorar ninhos desconhecidos.
Entre as explicações consideradas pelos pesquisadores está a biomecânica do corpo humano. “Ninguém é perfeitamente simétrico, e a forma como o cérebro de cada pessoa coleta informações sensoriais e as coordena com os músculos parece incliná-la suavemente para um lado”, disse Echeverría Huarte. “Mas devo ser honesto”, acrescentou. “Testamos várias ideias e a tendência continua aparecendo teimosamente, então o mecanismo exato ainda é uma questão em aberto.”
Além de contribuir para a compreensão do comportamento humano, os cientistas acreditam que a descoberta pode ter aplicações práticas. Segundo Echeverría Huarte, entender esse viés pode ajudar a tornar simulações de multidões e evacuações mais realistas, além de auxiliar no planejamento de espaços como museus, supermercados e estações de trem.
O tema também encontra paralelos no esporte. De acordo com o professor Gareth Irwin, da Universidade Metropolitana de Cardiff, as corridas dos Jogos Olímpicos modernos passaram a ocorrer no sentido anti-horário após atletas considerarem a direção oposta pouco natural, repercute o The Guardian.
“É razoável supor que isso tenha surgido devido à dominância da perna direita na população”, disse ele. “Correr na curva no sentido anti-horário coloca mais força interna no lado direito do corpo.”
Para Irwin, no entanto, a explicação pode envolver fatores mais amplos do que apenas a biomecânica. “A ideia de dominância do lado direito transcende o esporte e o atletismo, e pode ser vista em outras áreas, como o design de supermercados, influenciando a direção que as empresas pretendem seguir e como orientam os clientes dentro da loja”, disse ele.