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Hospital símbolo do ‘Holocausto brasileiro’ é fechado após 122 anos

Símbolo de violência manicomial no Brasil, o antigo Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, foi fechado definitivamente após 122 anos

Hospital Colônia de Barbacena - Divulgação / Luiz Alfredo / Revista O Cruzeiro

O antigo Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, foi fechado de forma definitiva nesta segunda-feira, 25, encerrando a trajetória de uma das instituições psiquiátricas mais emblemáticas e controversas do país. Fundado em 1903, o local se tornou símbolo da violência manicomial no Brasil — também conhecido como “Holocausto brasileiro” — após denúncias de superlotação, abandono e violações de direitos humanos registradas ao longo do século 20.

Atualmente chamado de Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB), o espaço vinha passando por um processo gradual de desinstitucionalização dos pacientes de longa permanência. Os últimos 14 internos foram transferidos na última semana para uma unidade construída em Barbacena e administrada pela prefeitura municipal.

Segundo dados do governo de Minas Gerais, cerca de 40 mil pessoas passaram pela instituição entre 1942 e 2020, das quais aproximadamente 24 mil morreram; e muitos dos enviados ao hospital sequer possuíam diagnóstico de transtorno mental. Entre os internados estavam homossexuais, mulheres que haviam perdido a virgindade antes do casamento, pessoas em situação de rua, epilépticos e presos políticos, grupos marginalizados e frequentemente rejeitados pela sociedade da época.

Desde 2019, de acordo com a gestão estadual, 68 moradores receberam alta para continuidade do tratamento em residências terapêuticas e outras unidades especializadas. O encerramento definitivo da instituição marca o fim de um processo iniciado décadas atrás, ligado à reforma psiquiátrica brasileira e à luta antimanicomial.

“Durante todos esses anos, eles foram muito bem atendidos, mas o que mais lhes faltava era a liberdade, porque estavam dentro de um hospital. É isso que a gente concretiza hoje”, afirmou o gerente de internação do complexo hospitalar, Márcio Antônio Resende.

Os últimos pacientes transferidos eram todos idosos e necessitavam de cuidados específicos. Segundo Resende, eles apresentam comorbidades clínicas, limitações de mobilidade e necessidade de suporte alimentar diferenciado. A média de permanência dos moradores era de 49 anos de internação, enquanto a idade média atual do grupo é de 73 anos. Três deles chegaram ao hospital antes dos 15 anos de idade.

Holocausto brasileiro

O psicólogo e pesquisador da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Elizeu de Assis, afirma que o processo de desinstitucionalização da unidade ocorre desde 1979, impulsionado pela reforma psiquiátrica. Segundo ele, o antigo Hospital Colônia se tornou um marco desse movimento no Brasil.

Autor de uma tese de doutorado sobre a história da instituição, posteriormente transformada no livro ‘Exilados na Pátria’ (2020), o pesquisador analisou registros de internação entre 1903 e 1979 e contabilizou 91.911 pacientes e 18.802 mortes no período. De acordo com Assis, no início dos anos 2000 ainda havia cerca de 150 pacientes cujas famílias não haviam sido localizadas e que foram gradualmente encaminhados para residências terapêuticas.

A história do hospital ganhou repercussão nacional após reportagens e registros fotográficos exporem as condições vividas pelos internos. Parte dessa memória permanece preservada no Museu da Loucura, instalado no antigo complexo psiquiátrico.

Obras como ‘Holocausto Brasileiro’, da jornalista Daniela Arbex, e ‘Nos Porões da Loucura’, de Hiram Firmino, ajudaram a documentar os abusos cometidos na instituição. O tema também inspirou a série ‘Colônia’, dirigida por André Ristum.

Paciente da Colônia de Barbacena
Paciente da Colônia de Barbacena – Divulgação / Luiz Alfredo / Revista O Cruzeiro

Embora condene os tratamentos aplicados na época, Elizeu de Assis faz ressalvas ao uso do termo “holocausto” para definir a história do hospital. Para ele, a expressão pode descontextualizar o funcionamento da instituição e o modelo psiquiátrico vigente no período.

“[Os tratamentos] eram coisas horríveis mesmo, mas era o modelo que se tinha na época, como eletrochoque. Você não tinha os neurolépticos [antipsicóticos] nem uma série de condições que hoje nós temos”, diz o pesquisador à Folha de S. Paulo.

Assis também afirmou não ter encontrado registros documentais ou relatos de pacientes que confirmassem episódios de tortura com eletrochoque. Além disso, ele pondera que os trabalhadores do hospital atuavam frequentemente em condições extremas de superlotação.

Segundo o pesquisador, havia ocasiões em que dezenas de pacientes eram enviados diariamente de outras instituições psiquiátricas para Barbacena, muitas vezes transportados em viaturas policiais e sem diagnóstico médico adequado. “E os pacientes se acumulavam lá, não era problema somente do hospital ou que os trabalhadores de lá não queriam cuidar das pessoas”, diz o psicólogo.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.