Fóssil raro revela novas pistas sobre extinções em massa
Pesquisadores da Unipampa e do Museu Nacional reclassificam o Rastodon procuvirdens e apontam que a espécie pode ter raízes sul-americanas

“O que vejo lá?”, pergunta Vitor Ramil em ‘Indo ao Pampa’. A resposta, para os cientistas, pode estar no subsolo de São Gabriel, na região da Campanha Gaúcha. Foi ali que, em 2010, surgiu o fóssil mais completo do período Permiano (298 a 252 milhões de anos atrás) já encontrado na América do Sul: o Rastodon procuvirdens.
Agora, pesquisadores da Unipampa (Universidade Federal do Pampa) e do Museu Nacional da UFRJ avançaram na compreensão da espécie. Com microtomografia computadorizada, analisaram o crânio e o pós-crânio do animal, revelando detalhes inéditos. O estudo, publicado em agosto na Zoological Journal of The Linnean Society, reclassifica o Rastodon. Antes considerado um dicinodonte bidentálio — herbívoro com bico destentado e duas presas curvas —, ele passa a ser reconhecido como um emidopóideo, grupo conhecido por viver em tocas.
Segundo o doutorando João Lucas da Silva, líder da pesquisa, isso faz do exemplar de São Gabriel o mais antigo do subgrupo já identificado, sugerindo que suas raízes podem ser sul-americanas. “Ele se adaptou à vida em tocas. Não era um escavador exímio como uma toupeira, mas lidava bem com a tarefa”, explica.
Extinção e sobrevivência
Os dicinodontes habitaram a Terra entre os períodos Permiano e Triássico. Muitos desapareceram durante a maior extinção em massa da história, há 250 milhões de anos — um evento ainda mais devastador que o que eliminou os dinossauros. Mas os emidopóideos sobreviveram.
“Entender quem resistiu e por quê é fundamental para compreender padrões evolutivos e refletir sobre a atual crise da biodiversidade”, afirma o paleontólogo Voltaire Paes Neto, do Museu Nacional.
Material raro
O fóssil preserva um crânio praticamente completo, além de partes do esqueleto. Isso permitiu a reconstrução visual do animal e a conclusão de que se trata de um jovem adulto. Ainda assim, limitações técnicas impedem a observação detalhada da estrutura interna dos ossos sem danificá-lo. Para o professor Pedro Godoy, da USP, que avaliou o artigo, o trabalho representa “uma descrição extremamente completa, com uso de tecnologia de ponta, de um material muito raro”.
Futuro
Segundo a ‘Folha de São Paulo’, Silva sonha em encontrar, nos pampas, uma toca preservada como as já identificadas na África do Sul. Isso permitiria comparar fósseis em diferentes estágios da vida e compreender melhor a evolução da espécie. Enquanto isso, a Unipampa prepara uma exposição da ossada, prevista para dezembro, que deve aproximar o público dessa peça-chave da paleontologia brasileira.