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Fóssil esquecido por 75 anos em museu revela ancestral terrestre do crocodilo

Fóssil achado em 1948 e esquecido em museu nos EUA revelou nova espécie de crocodilomorfo que caçava em terra há 205 milhões de anos

Representação artística do Eosphorosuchus lacrimosa (à esquerda) sendo mordido por um Hesperosuchus agilis (à direita), próximos à carcaça de um Coelophysis / Crédito: Divulgação/Julio Lacerda

Um fóssil descoberto há quase oito décadas em Ghost Ranch, no Novo México, foi finalmente identificado como pertencente a uma nova espécie de crocodilomorfo do período Triássico. A descoberta revela que, há cerca de 205 milhões de anos, um parente dos crocodilos modernos caçava em terra firme e já apresentava sinais de diversidade funcional entre esses répteis ancestrais.

A espécie recém-descrita foi batizada de Eosphorosuchus lacrimosa e viveu durante o Triássico Superior, entre 237 milhões e 201 milhões de anos atrás. Diferentemente dos crocodilos atuais, que são majoritariamente associados a ambientes aquáticos, esse animal caçava em terra e tinha hábitos comparáveis aos de predadores terrestres modernos, como raposas e chacais.

O fóssil foi encontrado originalmente em 1948, em um conhecido sítio fossilífero de Ghost Ranch, local famoso por concentrações de restos de dinossauros. Na época, o espécime foi provisoriamente catalogado como pertencente à espécie Hesperosuchus agilis, um pequeno parente primitivo de crocodilos e jacarés. No entanto, uma nova análise mostrou que o animal possuía características anatômicas distintas o suficiente para ser classificado como um gênero e espécie inéditos.

“Esta é a primeira evidência realmente forte que temos da coexistência entre dois crocodilomorfos com aparências funcionalmente diferentes”, disse a coautora do estudo, Miranda Margulis-Ohnuma, paleontóloga da Universidade Yale, ao Live Science.

Detalhes da espécie

O estudo, publicado na quarta-feira, 15, no periódico Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, detalha a reclassificação do fóssil após uma análise minuciosa conduzida por Margulis-Ohnuma e outros pesquisadores. O material preservado inclui o crânio, ossos de uma das patas traseiras, uma vértebra e três escamas. Segundo os cientistas, o animal tinha aproximadamente o tamanho de um cachorro grande.

Fotografias do crânio do Eosphorosuchus lacrimosa / Crédito: Margulis-Ohnuma M. et al, Proc. R. Soc. B.

Uma das principais diferenças entre Eosphorosuchus lacrimosa e Hesperosuchus agilis está no formato do crânio. A nova espécie tinha focinho muito mais curto, um crânio espesso e reforçado e um osso pós-orbital triangular mais desenvolvido. Além disso, a mandíbula inferior apresentava características que sugerem a presença de músculos fortes, capazes de produzir uma mordida potente.

Esses traços indicam que o animal era um predador adaptado para capturar presas maiores ou menos ágeis do que aquelas perseguidas por espécies de focinho mais alongado. Para os pesquisadores, isso reforça a hipótese de que os dois crocodilomorfos, embora vivessem lado a lado, ocupavam nichos ecológicos distintos.

O fóssil de Eosphorosuchus lacrimosa foi encontrado a cerca de cinco metros de distância de um exemplar de Hesperosuchus agilis. De acordo com os autores do estudo, os dois animais viveram na mesma época e podem ter morrido em um mesmo evento, possivelmente uma inundação que acabou soterrando ambos.

“Ficou no porão do Museu Peabody [em Yale] por, literalmente, 75 anos“, disse Margulis-Ohnuma. “Às vezes, as pessoas vinham visitar e olhar para ele, mas nunca havia sido identificado.”

A descoberta também chama atenção para as lacunas ainda existentes sobre os primeiros estágios da evolução dos crocodilomorfos. O registro fóssil desse grupo ainda é limitado, e muitas espécies do Triássico são conhecidas a partir de apenas um único exemplar.

“É muito legal que não seja uma linhagem que esteja apenas lutando para se estabelecer — neste ponto, já existe diversidade”, disse Margulis-Ohnuma. “Estamos realmente obtendo um vislumbre do início da diversidade funcional entre os crocodilos.”

Para a pesquisadora, cada nova análise de fósseis antigos pode alterar significativamente o entendimento sobre a origem e a diversificação desse grupo. “Em relação aos primeiros crocodilos, temos uma grande carência de dados, então cada novo fóssil descoberto muda a história”, disse Margulis-Ohnuma ao Live Science. “Se pudermos continuar descrevendo o material que temos e, idealmente, encontrarmos novos fósseis, isso mudará a história a cada descoberta.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.