Fósseis no interior de SP revelam surto infeccioso em dinossauros pescoçudos
Estudo identifica osteomielite em seis saurópodes do Cretáceo encontrados em Ibirá; clima árido e água parada da região podem ter relação

Pesquisadores brasileiros descobriram um conjunto de fósseis que indica que a região de Ibirá, no interior de São Paulo, pode ter sido palco de um surto infeccioso entre dinossauros saurópodes — os gigantes pescoçudos do período Cretáceo. Em ossos de ao menos seis indivíduos, datados de cerca de 80 milhões de anos atrás, foram identificadas marcas de osteomielite, uma infecção óssea grave causada por microrganismos como bactérias, fungos, vírus ou protozoários.
As evidências foram descritas em artigo publicado na revista científica The Anatomical Record por pesquisadores da Universidade Regional do Cariri (Urca), com apoio da FAPESP e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) IEHYPA-Sudeste. Segundo Tito Aureliano, autor principal do estudo, os fósseis não apresentavam sinais de cicatrização, o que sugere que os animais morreram com a doença ainda em curso.
Análise
O achado é notável por dois motivos: são raros os registros de doenças infecciosas em saurópodes, e este é o primeiro a reunir múltiplos indivíduos afetados em um mesmo local e período. As lesões analisadas, algumas restritas à medula e outras se estendendo até a parte externa dos ossos, apresentavam padrões únicos, com formações circulares, elipses semelhantes a impressões digitais e até marcas largas e arredondadas que poderiam ter causado secreções como pus.
As análises foram feitas com microscópios eletrônicos e ópticos avançados. Embora os pesquisadores não tenham conseguido identificar todas as espécies envolvidas ou a origem exata da infecção, suspeita-se que o ambiente árido da chamada Formação São José do Rio Preto tenha tido papel determinante. Na época, a região era caracterizada por rios rasos e poças de água parada, ambiente ideal para a proliferação de patógenos transmitidos por mosquitos ou pela ingestão de água contaminada.
Aureliano destaca que os dados podem contribuir para pesquisas futuras ao oferecer critérios para diferenciar lesões infecciosas de outros tipos de alterações ósseas, como câncer. Segundo a CNN, a descoberta também reforça como fatores ambientais e ecológicos do passado profundo podem ter moldado a saúde e a sobrevivência dos dinossauros.