Fixação por brinquedos pode se parecer com um vício em alguns cães, diz estudo
Pesquisa com 1.700 cachorros mostra que animais chegam a trocar comida e sono pela chance de brincar, revelando padrões de fixação intensa e persistente

A cena é comum em muitos de lares: um cachorro que não solta sua bolinha favorita, pelúcia ou qualquer outro brinquedinho nem por um segundo, carregando-a para todos os cantos, quase hipnotizado. O que para muitos tutores parece ser apenas uma demonstração extrema de alegria, no entanto, pode representar um sinal de alerta.
De acordo com um estudo recente realizado com quase 1.700 cães de 33 países, essa fixação pode atingir níveis comparáveis aos vícios comportamentais observados em seres humanos. Os resultados, publicados na revista Royal Society Open Science, sugerem que a relação de alguns pets com seus brinquedos ultrapassa os limites de uma simples preferência recreativa.
Obsessão além da diversão
A pesquisa utilizou relatos de tutores para identificar padrões de comportamento que indicam uma motivação excessiva pela recompensa do objeto. Para chegar aos resultados, os cientistas avaliaram o grau de concordância dos donos em afirmações como “meu cachorro é viciado em bolas” e “quando é impedido de brincar, meu cachorro fica estressado e agitado”, que revelam se o animal fica estressado ou agitado quando é impedido de brincar.
Nos casos mais agudos, os animais demonstraram uma concentração tão intensa em seus brinquedos que passaram a ignorar necessidades vitais para a sua saúde: segundo os dados apurados, esses cães chegam a trocar momentos de alimentação, descanso e até a interação social com seus donos pela oportunidade de continuar brincando. Além disso, os pesquisadores notaram que o estado de excitação permanecia elevado mesmo quando o brinquedo já não estava por perto, revelando uma dificuldade clara em abandonar o foco na atividade.
Diferenças entre raças
O estudo também trouxe revelações fascinantes sobre como a raça canina e a história da domesticação influenciam essa compulsão. Conforme detalhado pela Revista Galileu, o grupo dos pastores – conhecido pela inteligência e obediência – apresentaram os maiores índices desse comportamento viciado, seguidas de perto pelos terriers e retrievers.
Para os especialistas, essa tendência está ligada à seleção artificial realizada por humanos ao longo dos séculos. Raças criadas para funções de pastoreio e caça foram geneticamente preparadas para exibir uma persistência incansável e alta motivação diante de tarefas específicas, o que hoje se traduz em uma obsessão por objetos domésticos.
Instinto versus dependência química
É fundamental, no entanto, compreender a natureza desse “vício” para não confundir com dependências biológicas humanas. Os pesquisadores fazem questão de ressaltar que os mecanismos cerebrais não são necessariamente os mesmos de um vício em substâncias químicas.
Este novo trabalho funciona como uma ampliação de uma investigação anterior da mesma equipe, publicada na revista Scientific Reports. Naquela ocasião, os cientistas avaliaram 105 cães já famosos por sua alta motivação para brincar e verificaram que 33 deles apresentavam comportamentos compatíveis com um perfil compulsivo. Com esses novos dados em mãos, a ciência agora busca fornecer ferramentas para que veterinários e tutores consigam traçar uma linha clara entre o que é um enriquecimento ambiental saudável e uma fixação prejudicial que compromete o bem-estar do animal.
*Sob supervisão de Éric Moreira