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Fêmeas de golfinho evitam machos agressivos no acasalamento

Nova pesquisa indica que fêmeas de golfinho conseguem reconhecer machos por seus chamados individuais e usam experiências passadas para evitar os mais agressivos durante o período reprodutivo

Golfinho-nariz-de-garrafa - Crédito: Reprodução/Band Jornalismo

As fêmeas de golfinho podem ser muito mais criteriosas na escolha de parceiros do que se imaginava. Uma nova pesquisa sugere que elas conseguem identificar machos por meio de seus assobios característicos e lembrar de comportamentos observados ao longo dos anos, evitando aqueles considerados mais agressivos durante a época de acasalamento.

O estudo foi realizado com uma população de golfinhos-nariz-de-garrafa do Indo-Pacífico que vive na Baía dos Tubarões, na Austrália Ocidental. De acordo com o The Guardian, o grupo vem sendo monitorado há mais de quatro décadas, permitindo que os pesquisadores acompanhem detalhes sobre suas relações sociais, comportamentos individuais e padrões reprodutivos.

Segundo a professora Stephanie King, especialista em comportamento animal da Universidade de Bristol e uma das autoras da pesquisa, a sociedade dos golfinhos é extremamente complexa. Machos e fêmeas frequentemente convivem por décadas, desenvolvendo relações sociais duradouras ao longo da vida.

Relações que vão além do acasalamento

De acordo com a pesquisadora, as interações entre golfinhos nem sempre estão ligadas à reprodução. Os machos podem realizar exibições para chamar a atenção das fêmeas ou demonstrar afeto por meio de comportamentos como toques e carícias.

No entanto, o cenário muda significativamente durante a época de acasalamento.

Nesse período, os machos costumam formar alianças compostas por pares, trios ou grupos maiores para aumentar suas chances de acesso às fêmeas. Essas associações podem resultar em comportamentos considerados agressivos ou coercitivos.

Segundo King, os machos frequentemente trabalham em conjunto para manter as fêmeas próximas durante os chamados “consortes”, eventos de acasalamento que podem durar desde algumas horas até várias semanas.

Comportamentos agressivos têm consequências

Durante esses períodos, os machos podem restringir os movimentos das fêmeas e mantê-las em áreas específicas, geralmente próximas de outros aliados que ajudam a afastar possíveis rivais.

A pesquisa destaca que algumas dessas interações envolvem mordidas, investidas e golpes entre os animais.

Além do risco de ferimentos físicos, esses comportamentos podem gerar outros prejuízos para as fêmeas. Segundo os pesquisadores, o tempo gasto lidando com situações agressivas reduz oportunidades importantes de alimentação e outras atividades essenciais para sua sobrevivência.

O estudo também aponta que alguns machos apresentam esse tipo de comportamento com muito mais frequência do que outros.

Memória influencia decisões

Os resultados sugerem que as fêmeas observam essas diferenças ao longo do tempo e utilizam essas informações quando chega o momento de escolher parceiros.

Segundo os pesquisadores, os assobios característicos, uma espécie de assinatura vocal individual dos golfinhos, desempenham papel fundamental nesse processo.

“Agora sabemos que machos e fêmeas podem usar assobios característicos para rastrear o comportamento individual ao longo do tempo e usar isso para orientar a tomada de decisões”, afirmou King.

A pesquisa indica que as fêmeas em período fértil tendem a evitar machos conhecidos por comportamentos mais agressivos. Já as fêmeas consideradas indisponíveis para reprodução, como aquelas mais velhas ou acompanhadas por filhotes, não demonstraram o mesmo padrão de evitação.

Décadas de observação

Os cientistas destacam que a longa duração do acompanhamento da população da Baía dos Tubarões foi essencial para a descoberta.

Ao longo de mais de 40 anos de estudos, os pesquisadores reuniram informações detalhadas sobre os assobios individuais dos machos, suas interações sociais e os momentos em que as fêmeas adultas entram no cio.

Esses dados permitiram identificar uma possível relação entre a memória social das fêmeas e suas escolhas reprodutivas.

Publicada nos Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), a pesquisa reforça a ideia de que os golfinhos possuem vidas sociais complexas e são capazes de usar informações acumuladas ao longo de muitos anos para orientar comportamentos importantes, incluindo a seleção de parceiros.


*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes