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Estudo revela como humanos ‘arrumavam a cama’ há até 200 mil anos

Pesquisadores identificaram estruturas de descanso feitas com vegetação e cinzas em caverna sul-africana, indicando hábitos sofisticados de organização doméstica na Idade da Pedra

O estudo revela seis tipos diferentes de estruturas de camas na Caverna da Fronteira, na África do Sul, e mostra como os ancestrais humanos mantinham seus espaços domésticos. - Foto: Wikimedia Commons/MADe

Muito antes da existência de colchões, travesseiros ou lençóis, os primeiros Homo sapiens já demonstravam preocupação com conforto, higiene e organização dos espaços onde viviam.

Um novo estudo arqueológico revelou que grupos humanos que ocuparam uma caverna no sul da África há até 200 mil anos queimavam antigas estruturas de descanso e montavam novas camas de vegetação sobre camadas de cinzas.

A descoberta foi feita na chamada Caverna da Fronteira, localizada entre a África do Sul e Essuatíni, um sítio arqueológico ocupado continuamente entre cerca de 220 mil e 43 mil anos atrás. No local, os pesquisadores identificaram seis estruturas diferentes de leitos preservadas nas camadas sedimentares da caverna.

O estudo, publicado no Journal of Archaeological Science, aponta que as camas eram feitas principalmente com gramíneas da subfamília Panicoideae, grupo vegetal que inclui plantas como milho, cana-de-açúcar e painço — além de juncos em alguns casos.

Camas eram queimadas e reconstruídas

Um dos aspectos mais impressionantes da pesquisa foi a identificação de um padrão contínuo de renovação dessas estruturas. Em diversas camadas, os arqueólogos encontraram resíduos carbonizados sob leitos mais recentes, sugerindo que as camas antigas eram queimadas antes da construção de novas superfícies de descanso.

Segundo os pesquisadores Peter Morrissey e Dominic Stratford, da Universidade de Witwatersrand, essa prática parece ter sido mantida por dezenas de milhares de anos.

Os cientistas acreditam que o uso das cinzas poderia ter diferentes funções. Uma das hipóteses é que elas atuassem como repelente natural contra insetos. Outra possibilidade é que ajudassem no isolamento térmico, mantendo o solo mais seco e aquecido dentro da caverna.

Ainda assim, os autores destacam que nem sempre é possível determinar se as cinzas eram colocadas intencionalmente sob os leitos ou se as camas eram montadas sobre restos de fogueiras já existentes.

Retrato raro da vida doméstica pré-histórica

A análise microscópica dos sedimentos revelou detalhes importantes sobre a organização doméstica dos grupos humanos da Idade da Pedra Média. As camadas mais antigas apresentaram sinais de ocupações intensas, com abundância de fitólitos, partículas microscópicas produzidas por plantas, além de resíduos carbonizados e fragmentação de materiais.

Já os estratos mais recentes, datados entre 60 mil e 43 mil anos atrás, sugerem ocupações menores ou mais breves.

Os pesquisadores também identificaram diferenças em relação a outros sítios arqueológicos sul-africanos. Enquanto na Caverna da Fronteira predominavam camas feitas de gramíneas, locais como a Caverna Sibhudu apresentavam maior uso de juncos. Segundo os cientistas, isso pode refletir tanto diferenças ambientais quanto preferências culturais entre grupos distintos.

Comportamento complexo surgiu muito cedo

Para os autores, o estudo reforça a ideia de que humanos da Idade da Pedra Média já apresentavam elevado grau de planejamento doméstico e organização espacial muito antes do surgimento das sociedades agrícolas, repercute a Revista Galileu.

O uso contínuo de camas vegetais, a manutenção frequente dos espaços e o controle do fogo aparecem associados ao aumento da complexidade comportamental humana observado a partir de cerca de 125 mil anos atrás, período que também coincide com outras transformações importantes, como o uso de ocre, o desenvolvimento de ferramentas compostas e o surgimento de práticas simbólicas.

A pesquisa também desafia interpretações antigas sobre a ocupação da caverna. Algumas camadas antes consideradas sinais de presença humana esporádica revelaram, na análise microscópica, evidências de atividades intensas e repetidas de manutenção doméstica.

Para os cientistas, isso indica que os comportamentos cotidianos dos primeiros Homo sapiens eram muito mais sofisticados do que se imaginava.


*Sob supervisão de Éric Moreira