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Estudo questiona narrativa clássica da lendária Batalha de Hastings

Interpretação de fontes medievais aponta possível erro histórico, e que o rei Harold não marchou até o norte, como dizem as lendas da Batalha de Hastings

Pintura representando a Batalha de Hastings / Crédito: Getty Images

Uma nova pesquisa acadêmica está colocando em xeque uma das narrativas mais consolidadas sobre a Batalha de Hastings, evento central da história inglesa. A interpretação tradicional sustenta que o rei Haroldo II teria sido derrotado após submeter seu exército a uma exaustiva marcha de quase 480 quilômetros entre o norte e o sul da Inglaterra. Agora, um historiador propõe uma leitura alternativa: a de que esse deslocamento pode nunca ter ocorrido da forma como se acreditava.

De acordo com o pesquisador Tom Licence, professor da Universidade de East Anglia, a ideia da chamada “marcha forçada” teria se baseado em uma interpretação equivocada de fontes medievais. Segundo ele, registros da Crônica Anglo-Saxônica indicam que a frota inglesa “retornou para casa” pouco antes da invasão normanda. Tradicionalmente, essa expressão foi entendida como a dispersão dos navios para seus portos de origem, o que teria deixado o rei sem recursos marítimos e obrigado a avançar por terra.

Licence, no entanto, argumenta que o termo pode ter outro significado. Ao reavaliar o uso da expressão em diferentes trechos da crônica, ele concluiu que “voltar para casa” poderia se referir ao retorno da frota a uma base central, possivelmente em Londres. “[Eles] interpretaram isso como significando que, assim que toda a frota foi desmobilizada, Haroldo recebeu a terrível notícia de que Hardrada, o guerreiro mais temido da cristandade, havia desembarcado no norte. Então, Haroldo está basicamente sem frota. E disso decorre que ele precisa marchar para todo lado”, afirmou o historiador ao The Guardian.

A nova leitura sugere que Haroldo II manteve sua capacidade naval ativa durante os eventos de 1066. Segundo Licence, há indícios de que o rei teria utilizado navios tanto para deslocar tropas quanto para tentar conter a invasão liderada por Guilherme, o Conquistador. Relatos normandos mencionam o envio de centenas de embarcações inglesas ao longo da costa sul, em uma tentativa de cercar a frota inimiga — uma estratégia que, ainda assim, não teria sido bem-sucedida.

Outro ponto levantado pelo pesquisador é a ausência de evidências diretas sobre a suposta longa marcha. “E não consegui encontrar nenhuma referência à marcha. Isso foi uma verdadeira surpresa, porque é uma história tão arraigada. Quero dizer, é a marcha mais famosa da história inglesa, é central para o debate em torno da derrota de Haroldo em Hastings. E não está nos textos.” Para ele, a hipótese mais plausível é que o rei tenha se deslocado por via marítima até o norte, enfrentado as forças vikings de Harald Hardrada e retornado da mesma forma ao sul do país.

Reescrevendo a história

A proposta altera significativamente a imagem tradicional de Haroldo, frequentemente retratado como um líder exausto e pressionado pelas circunstâncias. Na visão de Licence, o monarca pode ter sido, na verdade, um estrategista que utilizou os recursos disponíveis de forma coordenada. “Só um general louco tentaria o que parece uma marcha impossível, que de qualquer forma não está registrada nas fontes.” Ele acrescenta que o rei inglês “não era um comandante reativo e exausto, mas sim um estrategista que utilizava os recursos navais da Inglaterra para conduzir uma defesa coordenada”.

A pesquisa será apresentada em uma conferência na Universidade de Oxford no dia 24 de março. Especialistas da área consideram a hipótese relevante para o debate historiográfico. Para a pesquisadora Rebecca Tyson, a nova interpretação reforça o papel frequentemente subestimado das operações marítimas nos acontecimentos de 1066. Já Michael Lewis afirmou que o estudo “mostra que ainda há muito a aprender sobre os eventos de 1066” e classificou a proposta como “uma descoberta fascinante”, ao sugerir que o deslocamento de Haroldo pode ter sido mais “fácil e lógico” do que a narrativa tradicional indica.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.