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Escavações revelam camadas ocultas da história do Palácio de Versalhes

Antigo lar da aristocracia absolutista francesa, o Palácio de Versalhes foi alvo de escavações que revelaram mais sobre sua história de quase quatro séculos

Fotografia de área escavada no Palácio de Versalhes / Crédito: Divulgação/Inrap/P. Raymond

Escavações recentes realizadas nos pátios internos da ala sul e no terraço norte do Palácio de Versalhes, antiga residência da nobreza absolutista francesa, trouxeram à tona novas camadas de sua rica história. Essas áreas eram tradicionalmente associadas aos aposentos reservados para a alta aristocracia, incluindo o Delfim, a Rainha e o Rei.

O Instituto Nacional de Pesquisa Arqueológica Preventiva da França (Inrap) divulgou um comunicado na última segunda-feira, 8, destacando que as descobertas oferecem uma visão sem precedentes das técnicas construtivas, das intervenções ao longo dos anos e do cotidiano da corte que moldou esse emblemático monumento.

É importante notar que o palácio passou por diversas transformações ao longo de 400 anos, desde sua utilização inicial como pavilhão de caça por Luís XIII até as reformas que se seguiram após os danos sofridos durante a Primeira Guerra Mundial.

Pátios da rainha

Nos pátios dedicados à Rainha e ao Delfim, situados no núcleo central da ala sul, arqueólogos realizaram escavações até atingirem o leito rochoso arenoso. A uma profundidade de 3,2 metros, foram identificados elementos essenciais da engenharia e arquitetura cortesã dos séculos 17 e 18.

Entre os achados notáveis, encontram-se as fundações de galerias apoiadas em colunas que já não existem mais, sistemas de drenagem em pedra, galerias abobadadas para manutenção das redes hidráulicas e coletores monumentais para águas pluviais. A complexidade e a densidade dessas estruturas prometem permitir uma cronologia precisa desses espaços.

Antigas fundações descobertas no Palácio de Versalhes / Crédito: Divulgação/Inrap/M. Brugellis

Ademais, foram descobertas seções preservadas da muralha interna do fosso projetado por Louis Le Vau na década de 1660. Este projeto tinha como objetivo embelezar o primeiro castelo de Luís XIV. Os componentes desse revestimento — contrafortes de tijolos e pedras de calcário — aparecem raramente no palácio, tornando essa descoberta ainda mais significativa.

Fragmentos de porcelana chinesa e peças de faiança branca e azul também foram encontrados, sugerindo o cotidiano luxuoso da corte. Entre os achados está a base de uma grande bacia circular instalada entre 1668 e 1690 no antigo Grande Pátio. Essa estrutura foi posteriormente dividida com a construção de um pavilhão para ampliar os aposentos da Rainha e incluía uma galeria abobadada que pode ter sido ornamental.

O Inrap ressalta que investigações arquivísticas adicionais são necessárias para compreender melhor a iconografia da bacia e sua função específica.

Vale mencionar que, no contexto da expansão dos apartamentos reais no final do século 18, a borda dessa bacia foi incorporada a novas construções. Curiosamente, várias galerias abobadadas ainda se conectam ao núcleo original do pátio.

Terraço do rei

Na área reservada ao Rei, escavações no terraço norte revelaram métodos construtivos pouco conhecidos das diferentes fases do castelo. Ao longo da fachada, arqueólogos descobriram cavidades preenchidas com gesso e fragmentos esculpidos datados dos séculos 17 e 18, incluindo uma mão, uma mandíbula de cavalo e uma cabeça de carneiro. Segundo o Inrap, esses elementos podem ter sido removidos durante restaurações realizadas no século 20.

Entre o edifício central norte e a ala adjacente, surgiram fossas anteriores à construção atual. Os materiais encontrados nelas incluem fragmentos de madrepérola e conchas, interpretados como remanescentes da antiga gruta de Tétis, que foi demolida em 1685 quando teve início a construção da ala. Já no canto sudeste do terraço, uma pequena estrutura quadrada com abóbada pode ser um sumidouro que atesta as práticas hidráulicas do século 17.

Fotografia tirada em meio às escavações no Palácio de Versalhes / Crédito: Divulgação/Inrap/Hamid Azmoun

Uma descoberta estrutural considerável sugere a prática contínua de reutilização de materiais nas obras em Versalhes. Uma parede de fundação paralela à ala norte revelou-se construída com blocos de calcário provenientes de antigas balaustradas ou escadarias ao longo de mais de 17 metros.

A princípio acreditava-se que esses elementos eram oriundos da gruta de Tétis; no entanto, essa hipótese ainda está sendo reavaliada. Espera-se que futuras análises comparativas possam esclarecer a origem exata desses materiais, repercute a Revista Galileu.

Ainda assim, o Inrap sugere que essa fundação pode estar relacionada à construção de uma cerca com corrimão semelhante ao projeto elaborado por Ange-Jacques Gabriel na década de 1680, que passou por várias reconstruções até 1771. Esta barreira separava os jardins abertos ao público dos acessos restritos às carruagens autorizadas nas proximidades dos aposentos reais.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.