Erupção de vulcão produziu o som mais alto já registrado na história
Som mais alto já registrado pela humanidade foi ouvido a mais de 4,6 mil quilômetros de distância de seu local de origem

Vulcões podem ser assustadores e, ao longo da história, algumas erupções ficaram particularmente famosas. É o caso da destruição de Pompeia, soterrada pela erupção do Monte Vesúvio no ano 79 d.C.. Outro episódio bastante conhecido viria a ocorrer muito tempo depois, em 1883, quando uma grande erupção levou mais de 36 mil pessoas à morte e alterou o clima da Terra. O episódio, ocorrido na Indonésia, é considerado até hoje como o segundo mais letal da história e destruiu 165 vilarejos em menos de 48 horas.
Mas essa tragédia não aconteceu de repente. Os primeiros sinais da atividade vulcânica apareceram em maio daquele ano, quando tripulações de navios que cruzavam a região observaram grandes colunas de fumaça e cinzas saindo do Krakatoa, que permanecera adormecido por cerca de dois séculos. Meses mais tarde, especificamente em 26 de agosto, tiveram início as grandes erupções, que lançaram enormes quantidades de lava, pedra-pomes e cinzas em direção ao oceano. Infelizmente, esse mesmo material deslocado provocou tsunamis que devastaram cidades costeiras.
Em pouco tempo, a coluna de cinzas atingiu 48 quilômetros de altura e, no auge da erupção, chegou a cerca de 80 quilômetros, espalhando partículas por uma área estimada em 777 mil quilômetros quadrados. O resultado foi que a região ficou mergulhada na escuridão por mais de dois dias.
Entre as testemunhas daquele terrível evento estava Sidney Baker, que ainda era criança e viajava com o pai em um navio. Décadas mais tarde, ele recordaria que a quantidade de cinzas era tão intensa que todos temiam sufocar. Segundo seu relato à BBC, a escuridão era absoluta. Por isso, era impossível enxergar a própria mão diante do rosto, enquanto uma espessa camada de cinzas cobria a embarcação.
Um grande estrondo
Outro fator que entrou para a história foi o estrondo das explosões. Acontece que a principal detonação, ocorrida na manhã de 27 de agosto, foi tão impressionante que foi ouvida a mais de 4,6 mil quilômetros de distância, chegando até a Austrália e à ilha Maurício. Ela é, até hoje, considerada o som mais alto já registrado pela humanidade.
De acordo com o escritor Simon Winchester, praticamente toda a ilha foi vaporizada na explosão. Logo depois, o vazio deixado pelo colapso foi preenchido por enormes volumes de água do mar, que se transformaram instantaneamente em vapor devido às altas temperaturas, desencadeando tsunamis gigantescos. Essas ondas foram responsáveis por cerca de 34 mil das mais de 36 mil mortes registradas.
Algumas pessoas conseguiram escapar para regiões mais altas, mas muitas acabaram sendo atingidas por fluxos piroclásticos, que são avalanches extremamente rápidas de gases superaquecidos, cinzas e fragmentos de rocha.
E aqui vai uma informação importante: os impactos não se restringiram às fronteiras da Indonésia. Na verdade, as cinzas permaneceram suspensas na atmosfera durante anos, formando halos ao redor do Sol e da Lua, alterando a forma como a luz era dispersada e reduzindo a temperatura média global em cerca de 0,5 °C. O clima levou aproximadamente cinco anos para retornar às condições anteriores.
Teria inspirado O Grito
O fenômeno também produziu amanheceres e entardeceres intensamente avermelhados em diversas partes do mundo — e alguns especialistas acreditam que esse efeito atmosférico teria inspirado o céu retratado na famosa pintura O Grito, de Edvard Munch.
A fonte destaca que, apesar da tragédia, a erupção do Krakatoa impulsionou importantes avanços científicos. Isto porque, ao estudar a dispersão global das cinzas, pesquisadores identificaram pela primeira vez a existência das correntes de jato, correntes de ar de alta altitude que desempenham papel fundamental na circulação atmosférica.
Para Simon Winchester, autor do livro Krakatoa: o dia em que o mundo explodiu, o desastre marcou uma mudança na forma como a humanidade passou a enxergar o planeta, sendo a primeira vez que cientistas perceberam claramente que um único evento natural poderia provocar consequências em escala global.
Ideias que hoje parecem naturais, como o aquecimento global e a elevação do nível do mar, têm origem nessa percepção de que tudo está conectado. Essa forma de entender o planeta começou com a erupção do Krakatoa”, contou à BBC.