Esqueletos de equídeos revelam drama da erupção do Vesúvio em Pompeia
Esqueletos de dois equídeos foram encontrados sob ruínas de uma padaria em Pompeia, e revelam mais sobre os momentos finais da cidade romana

A descoberta dos esqueletos de dois equídeos sob os escombros de uma antiga padaria em Pompeia está ajudando arqueólogos a reconstruir os momentos que antecederam a destruição da cidade durante a erupção do Monte Vesúvio, em 79 d.C. Os restos mortais foram encontrados na Casa dos Amantes Castos, um dos complexos arqueológicos mais importantes da cidade romana soterrada.
Os animais, que podem ter sido cavalos, burros ou mulas, foram localizados durante um projeto de limpeza e reavaliação de áreas que haviam sido escavadas originalmente no final do século 20. Em uma sala situada ao lado do forno da padaria, pesquisadores removeram uma camada de solo deixada intacta durante intervenções anteriores e encontraram os esqueletos de dois grandes herbívoros apoiados junto a uma parede.
A Casa dos Amantes Castos preserva uma ampla estrutura destinada à produção de pão, incluindo fornos, áreas de armazenamento, espaços de trabalho e aposentos. Escavações realizadas anteriormente já haviam revelado estábulos e a presença de outros equídeos utilizados em atividades ligadas ao funcionamento da padaria, como o transporte de suprimentos e a moagem de grãos.
Segundo os arqueólogos, os dois animais recém-descobertos provavelmente haviam sido transferidos para uma área provisória enquanto obras de reforma eram executadas em outras partes do complexo. Evidências encontradas no local indicam que reparos estavam em andamento pouco antes da erupção. Os estábulos próximos haviam sido afetados por terremotos anteriores, e trabalhadores realizavam reconstruções quando o desastre interrompeu as atividades.
A sala onde os animais foram encontrados media cerca de 6,3 metros por 3,45 metros. O espaço já não era utilizado para a fabricação de pão. No interior havia uma grande bancada de trabalho sustentada por blocos de calcário, mas, no momento da erupção, essa estrutura havia sido removida, deixando a área livre para acomodar temporariamente os animais.

Detalhes dos estudos
Os estudos iniciais apontam que o equídeo mais velho, identificado como RP1, tinha entre 10 e 12 anos de idade. Seu esqueleto foi encontrado na parte norte da sala. Já o segundo animal, denominado RP2, era mais jovem e teria entre 3,5 e 6 anos. Os pesquisadores ainda não conseguiram determinar com precisão a espécie dos dois indivíduos. Análises biométricas e testes genéticos estão previstos para esclarecer se eram cavalos, burros ou híbridos.
Um dos achados mais significativos foi registrado junto ao esqueleto de RP1. Na região do pescoço, os arqueólogos encontraram dois anéis de ferro pertencentes a um sistema de arreios. Próximo a eles estavam três contas de pasta de vidro — uma azul e duas brancas — agrupadas no mesmo local. A hipótese é que os objetos integrassem um elemento decorativo preso à coleira ou a alguma correia utilizada no animal, segundo comunicado.
Nenhum ornamento semelhante foi localizado junto aos restos de RP2. Para os pesquisadores, a presença das contas sugere que o animal mais velho recebia um tratamento diferenciado e que a relação entre humanos e animais na padaria não se limitava apenas ao trabalho cotidiano.
Além dos restos dos animais e dos objetos associados a eles, as evidências geológicas encontradas no local ajudaram a reconstruir a sequência dos acontecimentos durante a catástrofe. Os arqueólogos observaram que não havia lapilli — pequenas pedras-pomes geradas na fase inicial da erupção — ao redor ou abaixo dos esqueletos.
Esse detalhe levou os pesquisadores à conclusão de que os animais morreram antes que os materiais vulcânicos começassem a se acumular dentro da sala. Sobre os esqueletos foi encontrada uma grande viga de madeira identificada como sendo de bordo. O elemento apresentava sinais de queima e acabou posteriormente soterrado por cinzas.
A interpretação da equipe é que uma parte do piso superior do edifício desabou durante os estágios iniciais da erupção, atingindo e matando os dois animais. Tremores que antecederam a fase principal da atividade vulcânica podem ter provocado o colapso da estrutura.

Os pesquisadores também encontraram fragmentos de cestaria espalhados pelo ambiente e espessas camadas de cinzas envolvendo os restos mortais. As evidências sugerem que um incêndio permaneceu ativo por algum tempo antes de ser interrompido pelas condições extremas provocadas pela chegada de gases vulcânicos quentes e cinzas.
A investigação reúne especialistas de diferentes áreas, incluindo arqueólogos, arqueozoólogos, arqueobotânicos e profissionais de análise forense. O objetivo é compreender não apenas a sequência de eventos que levou à destruição de Pompeia, mas também aspectos da vida cotidiana na cidade pouco antes da erupção, repercute o Archaeology News.
Os trabalhos laboratoriais continuam e devem fornecer informações adicionais sobre a saúde dos animais, suas características biológicas e a função que desempenhavam dentro da operação da padaria. Para os pesquisadores, a descoberta acrescenta novos elementos ao entendimento da vida humana e animal em Pompeia, preservada sob as cinzas do Vesúvio por quase dois milênios.