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Entenda como humanos atravessaram suínos pelo Oceano Pacífico há 4 mil anos

Estudo publicado na revista Science no dia 1º de janeiro trouxe à luz o impacto que os humanos tiveram na disseminação das populações suínas

Imagem ilustrativa - Crédito: Getty Images

Animais e plantas nem sempre se dispersaram de forma natural pelas ilhas que formam a Indonésia, no Sudeste Asiático. Essa peculiaridade já havia sido registrada no século 19 pelo biólogo Alfred Russel Wallace, que percebeu que leopardos e macacos do lado asiático dificilmente se misturavam com os mamíferos do lado australiano, como os marsupiais. Essa fronteira biogeográfica ficou conhecida como Linha de Wallace.

Entretanto, os porcos se destacam como uma exceção notável. Estes animais estão presentes em ambos os lados dessa linha, abrangendo desde o sudeste asiático até áreas remotas da Polinésia. E um novo estudo, publicado na revista Science no dia 1º de janeiro, trouxe à luz o impacto que os humanos tiveram na disseminação dessas populações suínas na região.

Os pesquisadores sugerem que os porcos foram introduzidos pelos povos de língua austronésia, sendo considerados invasores. Para sustentar essa hipótese, foi realizada uma análise genética envolvendo 117 suínos, tanto modernos quanto antigos. A pesquisa incluiu a avaliação de 708 amostras, tanto vivas quanto arqueológicas, e a comparação de 585 genomas mitocondriais para identificar semelhanças genéticas.

O que a investigação revelou

David Stanton, pesquisador associado à Universidade de Cardiff e à Universidade Queen Mary, explicou que os resultados da investigação revelam as complexidades envolvidas quando seres humanos transportam animais por grandes distâncias. De acordo com o portal Galileu, ele destacou que as migrações resultaram em uma diversidade genética nos porcos, um padrão difícil de decifrar, mas crucial para entender sua distribuição nas ilhas do Pacífico.

Atualmente, várias espécies de porcos nativos são encontradas no sudeste asiático Marítimo. No entanto, análises recentes indicam que há pouco cruzamento genético entre os suínos mais antigos da região.

A partir dos dados coletados, os cientistas conseguiram traçar o histórico da movimentação dos porcos. Descobriu-se que diferentes culturas têm introduzido variedades distintas de suínos na área ao longo dos milênios. As evidências mais antigas indicam que os habitantes de Sulawesi foram os primeiros a levar porcos para leste da Linha de Wallace.

Por volta de 4 mil anos atrás, com o estabelecimento de comunidades agrícolas, a introdução de porcos domésticos na região intensificou-se. Os autores do estudo documentaram essa jornada: iniciada em Taiwan, as populações suínas migraram para as Filipinas, norte da Indonésia e Papua-Nova Guiné antes de alcançarem ilhas periféricas como Vanuatu e Polinésia.

É importante ressaltar que nem todos os porcos introduzidos se tornaram domesticados; muitos deles escaparam e se tornaram selvagens. Em Komodo, por exemplo, houve hibridação entre porcos e javalis, tornando-se uma fonte importante de alimento para os dragões-de-komodo, uma espécie ameaçada.

Questões culturais e sociais

Ainda que a separação biogeográfica não seja tão clara quanto em outras espécies, a percepção sobre os porcos varia significativamente entre as ilhas: enquanto alguns são reverenciados como seres espirituais, outros são tratados como pragas.

As questões culturais e sociais relacionadas à conservação complicam ainda mais as políticas regionais sobre quais espécies devem ser reconhecidas como nativas. Laurent Frantz, da Universidade Queen Mary, levanta um dilema crucial: “em que ponto consideramos algo nativo? E se as pessoas introduziram espécies com dezenas de milhares de anos, vale a pena investir em sua conservação?”.

O estudo ilustra claramente os impactos duradouros das atividades humanas nos ecossistemas locais do Pacífico. Greger Larson, da Universidade de Oxford, comentou que “quando os humanos chegaram, os porcos se mostraram muito dispostos a se espalhar pelas ilhas recém-colonizadas do sudeste asiático e pelo Pacífico. Ao sequenciar os genomas de populações antigas e mais recentes, conseguimos vincular essas dispersões auxiliadas por humanos a populações humanas específicas, tanto no espaço quanto no tempo”.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.