DNA em esqueleto de 5,5 mil anos revela sífilis nas Américas
O estudo do DNA do esqueleto achado na Colômbia aponta que a sífilis estava nas Américas muito antes do que se pensava

A análise de DNA de um esqueleto de 5.500 anos, encontrado enterrado em um abrigo rochoso na Colômbia, revelou a presença antiga da bactéria Treponema pallidum, responsável por causar a sífilis. Além disso, segundo evidências genéticas, essa pessoa teria sido infectada por uma cepa do patógeno até então desconhecida.
O debate sobre a origem geográfica e a disseminação de doenças treponêmicas, como sífilis, bejel, bouba e pinta, é discutido por pesquisadores há vários séculos. Todas essas enfermidades são causadas por bactérias do mesmo gênero.
Em registros históricos, a presença da sífilis foi comumente documentada na Europa no século 15. Foi então que as primeiras teorias surgiram. Acreditava-se que Cristóvão Colombo teria levado a sífilis para as Américas, ou que os povos indígenas do continente teriam transmitido a doença a Colombo e sua tripulação.
Rastros nas Américas
No entanto, estudos de DNA mais recentes revelaram que a T. pallidum já estava presente no corpo de uma pessoa enterrada por volta do ano 1000 d.C. no Chile. Além disso, a presença também foi descoberta em várias pessoas enterradas entre 350 a.C. e 570 d.C. no Brasil. Isso coloca a bactéria nas Américas muito antes da expedição colombiana.
Publicado na revista Science na quinta-feira, 22, o novo estudo detalha o isolamento do genoma de um caçador-coletor que viveu há 5,5 mil anos. O feito chamou a atenção dos cientistas principalmente pela condição da ossada.
Sem marcas visíveis
De acordo com informações da revista Live Science, enquanto a maioria dos registros antigos da doença depende de esqueletos com lesões graves e visíveis, o indivíduo analisado na Colômbia não apresentava marcas aparentes nos ossos, o que surpreendeu a equipe.
Ao aprofundar a análise, os pesquisadores identificaram que o material genético pertencia a uma linhagem inédita, batizada de TE1-3. Cálculos estatísticos apontam que essa variante divergiu das cepas modernas há cerca de 13.700 anos.
Linhagem inédita
Portanto, o patógeno já circulava e se diversificava nas Américas milênios antes das estimativas anteriores. Segundo Davide Bozzi, autor principal da pesquisa, esses dados recuam significativamente a linha do tempo da associação entre o Treponema e os seres humanos.
Contudo, a antropóloga molecular Elizabeth Nelson faz uma ressalva importante. Embora o estudo comprove a longa história evolutiva da bactéria no continente, ainda não é possível afirmar se essa cepa específica era transmitida sexualmente, como ocorre com a sífilis venérea atual.
Repercussão científica
A descoberta também repercutiu entre acadêmicos que não participaram do trabalho. Em artigo de perspectiva, especialistas da Universidade Estadual do Mississippi avaliaram que o achado reforça a tese de origem americana da sífilis, enfraquecendo a teoria europeia.
Além disso, a comparação entre o DNA antigo e o moderno pode oferecer caminhos para controlar o ressurgimento global da infecção. Para as autoras, a epidemia histórica do século 15 pode ter sido o primeiro caso de uma doença a se globalizar, antecipando fenômenos vistos recentemente com o HIV e a Covid-19.