DNA denisovano ainda influencia sistema imunológico de povos da Oceania
Estudo identificou mais de 3 mil variantes genéticas herdadas do DNA dos denisovanos, que seguem ativas em populações oceânicas atuais

Genes herdados dos denisovanos, um grupo humano extinto que viveu na Ásia e desapareceu há cerca de 30 mil anos, continuam exercendo influência sobre o sistema imunológico de algumas populações modernas da Oceania. A conclusão é de um estudo publicado em 11 de junho na revista Science, que produziu o maior mapa já elaborado de DNA denisovano herdado por seres humanos atuais.
Segundo os pesquisadores, algumas pessoas da Oceania carregam milhares de variantes genéticas provenientes dos denisovanos que permanecem biologicamente ativas até hoje. Os resultados indicam que esse legado genético não representa apenas um vestígio de cruzamentos ocorridos no passado distante, mas continua desempenhando funções importantes no organismo humano.
Os cientistas identificaram 3.127 variantes herdadas dos denisovanos que seguem atuando no sistema imunológico. Parte dessas variantes influencia genes responsáveis por ativar ou desativar respostas imunológicas.
Maior catálogo de DNA já produzido
Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que populações da Oceania carregam quantidades significativas de DNA denisovano. Habitantes da Papua-Nova Guiné, por exemplo, podem apresentar até 5% desse material genético em seus genomas, uma das maiores proporções registradas no mundo. Em comparação, populações modernas do leste asiático geralmente possuem cerca de 0,1% de DNA denisovano.
Apesar dessa relevância, os povos da Oceania continuam pouco representados em bancos de dados genômicos globais. Para preencher essa lacuna, os pesquisadores sequenciaram os genomas de 177 indivíduos pertencentes a 12 populações da Oceania.
Os resultados foram comparados com 1.284 genomas já publicados de populações de diversas partes do mundo. Em seguida, os cientistas confrontaram esses dados com o genoma conhecido dos denisovanos e também com três genomas neandertais.
A análise permitiu construir um catálogo contendo três vezes mais sequências genéticas herdadas dos denisovanos do que havia sido identificado anteriormente. Mais de 70% dessas sequências foram encontradas exclusivamente em populações oceânicas.
Influência além da imunidade
O estudo também revelou que a seleção natural favoreceu algumas dessas variantes em populações da chamada Oceania Próxima, região que inclui a Nova Guiné, o Arquipélago de Bismarck e as Ilhas Salomão.
Entre os genes influenciados pelo DNA denisovano estão variantes relacionadas ao desenvolvimento ósseo, metabolismo e fertilidade. Os pesquisadores observaram que algumas dessas características se tornaram mais frequentes ao longo do tempo nessas populações.
Para entender se essas sequências continuavam exercendo algum efeito biológico, a equipe realizou experimentos voltados à atividade genética. Os testes mostraram que variantes herdadas dos denisovanos podem alterar o funcionamento de diversos genes ligados ao sistema imunológico.
No entanto, os cientistas ressaltam que as funções imunológicas específicas afetadas variam entre as diferentes populações analisadas.
Segundo os autores, os primeiros grupos humanos que chegaram à Oceania há pelo menos 42 mil anos podem ter se beneficiado dessas variantes genéticas ao entrar em contato com novos ambientes e novos agentes causadores de doenças.
A hipótese apresentada pelos pesquisadores sugere que os genes herdados dos denisovanos ajudaram essas populações a lidar com desafios biológicos encontrados durante a expansão humana pelo Pacífico.
Apesar disso, os cientistas ainda não sabem exatamente por que a seleção natural favoreceu determinadas variantes ao longo do tempo. Além disso, muitos dos genes identificados desempenham funções múltiplas no organismo, o que dificulta determinar com precisão quais vantagens específicas eles proporcionaram.
Os pesquisadores afirmam que as descobertas reforçam a importância dos patógenos na evolução humana e na história compartilhada entre humanos modernos e grupos extintos como os denisovanos.
O trabalho também destaca a necessidade de ampliar o sequenciamento genético de populações historicamente pouco estudadas. Segundo os autores, isso é fundamental para compreender melhor a diversidade do DNA denisovano preservado atualmente e para ampliar o conhecimento sobre a evolução humana.
Além disso, o estudo demonstra que o legado genético dos denisovanos permanece presente em aspectos importantes da biologia de populações modernas da Oceania, mesmo dezenas de milhares de anos após o desaparecimento desse grupo humano.
*Sob supervisão de Felipe Sales Gomes