Primeiro vertebrado terrestre pode ser bem diferente de como imaginávamos
Fósseis raros indicam que primeiro vertebrado terrestre se assemelha mais aos répteis e aos mamíferos em sua fase de crescimento do que aos anfíbios

Na última quinta-feira, 18, um grupo de cientistas destacou na Revista Science, que os primeiros vertebrados tetrápodes, grupo ancestral aos anfíbios, répteis, aves e mamíferos, provavelmente nunca passaram por uma fase larva. Ou seja, no seu desenvolvimento o animal se assemelha mais aos répteis e aos mamíferos do que aos anfíbios.
Até então, os cientistas acreditavam que o surgimento do primeiro animal terrestre estava envolvido com processos de desenvolvimento larval na água e fase adulta na terra. Porém, em vez de nascerem como girinos e se transformarem, os novos estudos dizem que eles já nasciam em versões menores de si mesmos.
Crescimento direto e indireto
Na biologia, de maneira simplificada, se divide as formas de crescimento dos animais em crescimento direto e indireto. O crescimento direto é aquele em que o filhote já tem as características principais do adulto.
Serve de exemplo para esse modelo, os humanos. Na maioria das vezes, quando nascemos, já temos todos os órgãos e membros presentes no corpo. Assim, ao longo do tempo o animal cresce, o organismo se desenvolve e chega até a fase reprodutiva.
No entanto, o desenvolvimento indireto segue outras regras. Neste modelo, o animal filhote não necessariamente parece com o adulto. Dessa maneira, a biologia, órgãos, membros e demais características são completamente diferentes.
Como exemplo, os sapos possuem crescimento indireto. Pois nascem como girinos dentro da água, seu corpo tem apenas um dorso com membros essenciais e uma cauda. Com o tempo, pernas, órgãos e membros surgem e a cauda se desfaz. Dessa forma, o indivíduo maduro é completamente diferente do filhote.
O estudo do primeiro vertebrado terrestre
Contudo, para chegar nessa conclusão, os cientistas americanos analisaram fósseis raros de recém-nascidos de embolômeros, predadores que viveram entre 350 e 280 milhões de anos atrás. Inclusive, esses seres foram encontrados no sítio paleontológico de Mazon Creek, em Illinois.
De qualquer forma, é dado pela ciência que os primeiros tetrápodes terrestres surgiram durante o período Devoniano, entre 419 e 359 milhões de anos atrás, visto que o ambiente aquático se tornava gradualmente mais competitivo, enquanto o terrestre tinha uma diversidade enorme de alimento não aproveitado.
Até então, os cientistas acreditavam que os primeiros tetrápodes respeitavam o mesmo comportamento dos anfíbios modernos. Pois, como os anfíbios modernos nascem na água e só depois da metamorfose vão para a terra, em um ambiente em que só existia vida na água, o processo pode ter sido semelhante.
Entretanto, ao examinarem os fósseis de recém-nascidos, os pesquisadores notaram a ausência de brânquias externas e qualquer outra característica aquática. Ou seja, na fase infantil, esses animais já tinham uma forma corporal semelhante à dos adultos. Jason Pardo, pesquisador de pós-doutorado em biologia evolutiva, e coautor do estudo diz ao Live Science:
Esses são detalhes íntimos dos primeiros momentos da vida desses animais. Nunca vimos isso antes para toda essa parte da árvore evolutiva”.
Ao mesmo tempo, segundo a revista Galileu, para tirar prova, outros animais da época foram analisados e nenhum deles possuía as características de um animal com crescimento indireto.
Método e renovação
Nesse sentido, os pesquisadores destacam que a questão é mais complexa do que parece. Para além de analisar um fóssil A ou B, a descoberta quebra o paradigma de “nascemos na água e fomos para a terra”, logo os primeiros animais terrestres são parecidos com os anfíbios.
Reconhecer que havia outros métodos de ir até o ambiente terrestre abre um leque de explicações e dúvidas sobre a diversidade de estratégias de desenvolvimento dos seres vivos. No mesmo sentido, os pesquisadores destacam que, por mais que possam estar errados, eles cumpriram uma parte importante da ciência: questionar e tensionar os cânones.
Revisar as hipóteses antigas abre caminho para que novas formas de interpretação se consolide e transforme o conhecimento científico. Durante muito tempo, os estudos dos animais extintos se deu através da comparação com animais modernos, modelo que pode levar a erros crassos. Arjan Mann, curador assistente no Museu Field de História Natural e coautor da pesquisa diz: “Acho que a principal mensagem deste estudo é que devemos sempre questionar o conhecimento convencional na ciência, especialmente quando essas ideias antigas não têm respaldo substancial”.
*Sob supervisão de Éric Moreira