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Descoberto o uso de corante azul há 34 mil anos na Geórgia

Ferramentas de pedra revelam que humanos pré-históricos já processavam plantas tóxicas não comestíveis para fins culturais e terapêuticos

Imagem ilustrativa de corante em pó azul - Getty Images

Uma descoberta surpreendente feita na Caverna Dzudzuana, nas Montanhas do Cáucaso, na Geórgia, está reescrevendo o que sabemos sobre a sofisticação dos primeiros Homo sapiens. Arqueólogos identificaram evidências do uso de índigo — um corante azul profundo — datadas de 34.000 anos atrás, tornando-se o registro mais antigo conhecido de processamento de corantes vegetais na pré-história.

A equipe internacional de pesquisadores, liderada pela Universidade Ca’ Foscari de Veneza, encontrou traços microscópicos de indigotina — o composto responsável pela cor azul do índigo — em ferramentas de moagem de pedra.

Os resíduos estavam alojados em seixos moídos, descobertos nos anos 2000 e reanalisados com tecnologias modernas. As partículas azuladas, fibrosas e combinadas a grãos de amido, revelam que essas pedras foram utilizadas para moer plantas com propósitos não alimentares.

A planta envolvida é a Isatis tinctoria L., conhecida como pastel, nativa da região do Cáucaso. Tradicionalmente usada para fins medicinais e como corante natural, a planta é tóxica e não comestível — o que indica que os humanos paleolíticos a cultivavam e processavam com um propósito consciente e complexo, como pintura corporal, arte, tintura de tecidos ou até rituais terapêuticos.

Análises

As análises, publicadas na revista PLOS ONE, empregaram uma variedade de métodos de ponta, incluindo microscopia confocal, espectroscopia Raman e FTIR, além do uso de luz síncrotron na Elettra Sincrotrone, em Trieste. A porosidade natural das pedras teria protegido as moléculas orgânicas por milênios, permitindo que esses vestígios fossem identificados com clareza surpreendente.

Para confirmar suas hipóteses, os pesquisadores realizaram arqueologia experimental. Cultivaram pastel por três verões em Verona, na Itália, e moeram a planta usando réplicas de ferramentas feitas com seixos do rio Nikrisi, próximo à caverna. Os resultados foram claros: os mesmos resíduos azuis foram produzidos, fortalecendo a ligação entre os achados arqueológicos e o uso intencional da planta para extração de corantes.

Segundo os autores do estudo, a descoberta amplia radicalmente a compreensão da vida humana no Paleolítico. Ela evidencia uma cognição avançada, com conhecimento químico das plantas, uso de recursos sazonais, transmissão cultural de técnicas e valorização de símbolos e cores — comportamentos antes raramente atribuídos a populações tão antigas.

Segundo o ‘Archaeology News’, mais do que uma curiosidade técnica, esses fragmentos de azul representam uma janela para o universo simbólico e social dos nossos ancestrais. Eles mostram que, mesmo há 34 mil anos, os humanos buscavam mais do que apenas sobrevivência: procuravam beleza, identidade, expressão e talvez até cura.

A Caverna Dzudzuana, já conhecida por abrigar algumas das mais antigas evidências da presença humana moderna na Eurásia, reforça sua importância como um sítio arqueológico-chave para entender a migração e a criatividade dos primeiros Homo sapiens.


*Sob supervisão de Fabio Previdelli