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Corrupto e escravista: as novas faces de Samuel Pepys

Investigações aos escritos do famoso administrador público e diarista inglês, Samuel Pepys, descobrem ocultação à trechos que se referem a escravos

Pintura de Samuel Pepys e ao lado sua biblioteca - Créditos: Getty Images

Nesta semana, um estudo lançado pela Historical Journal divulgou novas informações sobre os arquivos de Samuel Pepys. Conforme o artigo, um novo olhar sobre os escritos em diário do parlamentar britânico, revelou  seu envolvimento em redes de tráfico internacionais.

No entanto, a notícia que chocou a todos foi que nos arquivos havia uma explícita preocupação em esconder esse envolvimento. Para piorar, essa manipulação de seu arquivo pessoal, não teria ocorrido para esconder seus escravizados, mas sim para esconder seus casos de corrupção e suborno.

A figura histórica

Afinal, quem é Samuel Pepys? Pepys pode não ser um nome muito familiar para a maioria dos brasileiros, mas sua importância no âmbito global da história é inegável. Esse homem foi um aristocrata inglês  ativo no fim do século XVII, tendo sido parlamentar e até mesmo administrador da Royal Navy.

Para além de suas funções, Pepys ficou muito conhecido entre os historiadores por seu costume de escrever diários. Entretanto, nesses cadernos não estavam só informações pessoais, detalhes do seu serviço enquanto administrador também apareciam.

A pesquisa

Assim, para entender sobre o período em que viveu, muitos historiadores recorrem aos documentos de Samuel Pepys e sua biblioteca para estudar. O historiador da Universidade de Cambridge, Dr. Michael Edwards, não foi diferente.

Segundo o The Guardian, o pesquisador consultou centenas de registros na Biblioteca Pepys do Magdalene College, em Cambridge; nos Arquivos Nacionais; e na Biblioteca Bodleiana, em Oxford, para o estudo “Samuel Pepys, as Companhias Africanas e os Arquivos da Escravatura, 1660–1689”.

Entretanto, essa pesquisa difere da maioria. Ao invés de buscar informações sobre a administração inglesa, os costumes de época e quaisquer outras informações do âmbito da pública de Pepys, o historiador procurou achar as menções à escravidão no arquivo.

A revelação

Dessa forma, o historiador encontrou um relato de suborno ao administrador em que o que era oferecido era um pequeno garoto escravizado. Apesar de chocar qualquer um nos dias de hoje, na época, ofertas como essa eram super frequentes.

No entanto, Pepys recusou, mas não por avanço moral em relação a escravidão, mas sim para esconder seu “pagamento extra” pelo auxílio ao amigo. Posteriormente essa mesma oferta viria como “recompensa” ou “agradecimento”, termos muito mais aceitáveis para a época.

Porém, nunca mais em seus arquivos aparece uma menção ao menino/escravo. Edwards afirma:

“Ele quer mostrar que está agindo de acordo com as regras. Tentar controlar a forma como as pessoas o percebem parece ser bastante importante para ele. Sabemos que ele aceita outros tipos de suborno.”

Em segundo momento, o estudioso aponta que para além do próprio Pepys, o escrivão pessoal da figura histórica também “filtrou” o arquivo, como forma de preservar sua memória.

Conclusão

Sintetizando, olhar para o arquivo de Samuel Pepys pode ser muito revelador em diversos âmbitos da história. Os mecanismos escravistas para a acumulação de capital, a utilização da marinha britânica em fins escravistas, os jogos internos do parlamento inglês e demais temas são verdadeiramente revelados por esses arquivos.

Contudo, enquanto agente histórico, os documentos que ele deixou passaram pelo seu próprio crivo e manipulação. Para além de revelações, há apagamentos sistemáticos em suas documentações.

O arquivo de Samuel Pepys é um exemplo de como as fontes históricas nunca são translúcidas e um “portal” para o passado, na verdade, sempre haverá o que descobrir.

Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: