Com cerca de 2 mil anos, pegadas da era romana são descobertas em praia na Escócia
Descoberta inesperada de pegadas em praia desencadeou corrida contra o tempo para registrar e estudar os vestígios antes que fossem apagados pelo avanço das marés

Um casal que passeava com seus cães logo após uma tempestade encontrou, em uma praia escocesa, uma série de marcas incomuns no solo ainda úmido, que lembravam antigas pegadas humanas e de animais. A descoberta inesperada desencadeou uma verdadeira corrida arqueológica contra o tempo para registrar e estudar os vestígios antes que fossem apagados pelo avanço das marés.
“É muito raro se envolver em uma emergência arqueológica genuína onde, se não fizéssemos isso muito, muito rápido, todo o sítio desapareceria”, explicou a arqueóloga Kate Britton, da Universidade de Aberdeen, em um vídeo sobre a operação. As informações são do portal Live Science.
Na praia da Baía de Lunan, no leste da Escócia, os moradores locais Ivor Campbell e Jenny Snedden — acompanhados de seus cães, Ziggy e Juno — notaram uma camada de argila exposta nas dunas danificadas pela tempestade, onde surgiam as aparentes pegadas. Eles alertaram o arqueólogo do conselho de Aberdeenshire, Bruce Mann, que acionou Britton e sua equipe para investigar o local antes que ele se perdesse para sempre.
Condições desfavoráveis
Os arqueólogos trabalharam sob rajadas de vento que chegavam a 88,5 km/h, documentando as marcas enquanto o sítio era lentamente erodido a cada maré alta. Para registrar o máximo de informação possível, utilizaram drones, câmeras de alta resolução e, posteriormente, softwares de modelagem tridimensional em laboratório. Também produziram moldes de gesso de algumas das pegadas mais bem preservadas, deixadas por humanos descalços e por diferentes animais.
“Eu nunca tinha visto um lugar assim na Escócia”, afirmou Britton. “Ficou claro imediatamente que se tratava de algo especial.”
Sob as pegadas, os pesquisadores encontraram uma camada de restos vegetais carbonizados. A datação por carbono indicou que o material tinha cerca de dois mil anos, situando o sítio no final da Idade do Ferro.
Segundo Gordon Noble, também da Universidade de Aberdeen, as datas coincidem com o que já se conhece sobre a rica arqueologia do vizinho Vale de Lunan. “É muito empolgante pensar que essas gravuras foram feitas por pessoas na época das invasões romanas à Escócia e nos séculos que antecederam o surgimento dos pictos”, destacou.
Para William Mills, outro integrante da equipe, o sítio revela que a atual praia arenosa já foi, no passado, um estuário lamacento explorado por grupos humanos, possivelmente para a caça de cervos ou para a coleta de plantas silvestres.
Correndo contra o tempo
Britton e seus colegas escavaram e registraram o local durante dois dias intensos, reunindo o máximo de dados possível. Quando retornaram apenas uma semana depois, todas as impressões haviam desaparecido completamente.
“Pegadas que representam ações de pessoas ao longo de minutos, milhares de anos atrás, foram destruídas em poucos dias”, lamentou a arqueóloga.
Embora o sítio da Baía de Lunan seja considerado único na Escócia, Britton acredita que ele pode não ser um caso isolado. “O que isso significa para nós agora é que podem existir outros locais como este por aí”, afirmou.
Descobertas desse tipo são particularmente valiosas porque pegadas fossilizadas podem revelar detalhes surpreendentes sobre quem as deixou, como estimativas de peso, altura e idade, a velocidade com que caminhavam, se usavam ou não calçados e até mesmo aspectos de seu comportamento cotidiano.