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Cócegas em filhotes de primatas revelam que o riso surgiu há 15 milhões de anos

Pesquisa com grandes símios mostra que vocalizações de diversão são herança de ancestral comum e ajudaram a moldar as bases da linguagem humana

Filhote de orangotango, um dos grandes primatas cujas vocalizações ajudam cientistas a investigar as origens evolutivas do riso - Foto: Dimas Ardian/Getty Images

Experimentos aparentemente simples de fazer cócegas em filhotes de grandes símios revelaram que a risada humana tem raízes muito mais profundas do que se imaginava. Ao realizar experimentos de cócegas em filhotes de grandes símios e crianças, cientistas identificaram padrões sonoros que indicam que essa forma de expressão existe há pelo menos 15 milhões de anos. 

O estudo, publicado no periódico especializado Communications Biology, sugere que a capacidade de rir estava presente no ancestral comum que deu origem aos humanos e aos demais grandes símios antes da diversificação das espécies no período Mioceno. Conforme informações divulgadas pela Folha de S.Paulo, o trabalho foi conduzido por especialistas das universidades britânicas de Warwick e Portsmouth.

Herança de antepassados remotos 

A equipe formada por Chiara De Gregorio, Marina Davila-Ross e Adriano Lameira gravou as vocalizações de quatro orangotangos, dois gorilas, três bonobos, quatro chimpanzés e quatro crianças, todos com idades entre seis meses e sete anos.

Em depoimento exclusivo à Folha de S.Paulo, a pesquisadora Chiara De Gregorio explicou que o riso possui uma associação estreita com o ato de brincar, comportamento que diminui conforme os animais atingem a maturidade, especialmente no caso dos orangotangos solitários. Ela acrescentou, em tom descontraído, que fazer cócegas em um grande símio jovem é consideravelmente mais seguro do que tentar o mesmo procedimento com um gorila ou orangotango adulto.

Ritmo e controle vocal 

A análise detalhada das propriedades sonoras demonstrou que as risadas provocadas por cócegas funcionam como uma unidade básica de comportamento preservada ao longo da evolução. Em todas as espécies analisadas, o riso apresentou isocronia, ou seja, uma produção sonora com intervalos de tempo bastante regulares

Essa regularidade é mais evidente no contexto das cócegas do que em brincadeiras sociais, em que os movimentos físicos e a respiração alteram o ritmo vocal. Conforme os dados técnicos do estudo, embora o riso seja uma característica compartilhada, os seres humanos desenvolveram uma plasticidade única, conseguindo modular a velocidade da risada de acordo com a situação, tornando-a mais rápida durante as cócegas.

Caminho para a fala 

A variabilidade rítmica encontrada nos humanos é um indicativo do desenvolvimento da nossa sociabilidade. Os pesquisadores notaram que, na nossa espécie, mudanças imprevisíveis no ritmo do riso ajudam a transmitir estados emocionais positivos e a ampliar o contágio social entre os grupos. 

Esse controle vocal aprimorado é visto como um marco fundamental para o progresso da humanidade. Para os autores da pesquisa, essas descobertas oferecem evidências de uma transformação que favoreceu ritmos mais complexos e sensíveis ao contexto, abrindo caminho para o surgimento da fala e da linguagem oral.


*Sob supervisão de Éric Moreira

Meu propósito é dar voz a narrativas.