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Cientistas inauguram na Antártida 1º arquivo mundial de geleiras

Primeiro arquivo mundial de geleiras foi instalado recentemente no Planalto Antártico Oriental; o objetivo é proteger amostras de riscos humanos e falhas técnicas

Cientistas inauguraram o primeiro santuário do mundo para núcleos de gelo - Crédito: Divulgação/Fundação Ice Memory

Aprisionadas nas camadas profundas das geleiras, minúsculas bolhas de ar conservam amostras intactas da atmosfera de centenas, até milhares, de anos atrás. São verdadeiras cápsulas naturais do tempo, hoje ameaçadas pelo aumento das temperaturas globais, que acelera o degelo.

Diante desse cenário, cientistas abriram uma imensa caverna no gelo da Antártida para guardar amostras de núcleos glaciais, criando o primeiro santuário do mundo voltado exclusivamente à preservação desses registros climáticos. A iniciativa é coordenada pela Ice Memory Foundation, que atua em uma corrida contra o tempo para recolher testemunhos de gelo em geleiras ameaçadas em diferentes continentes.

De acordo com informações do portal Galileu, a nova estrutura foi instalada cerca de cinco metros abaixo da superfície nevada da Estação Concordia, no Planalto Antártico Oriental. Ali, as condições naturais funcionam como um congelador: a temperatura permanece estável em torno de -52 °C ao longo do ano, dispensando sistemas artificiais de refrigeração.

Em um contexto global sujeito a crises energéticas, instabilidades econômicas ou até conflitos, os pesquisadores optaram por uma região cuja conservação depende exclusivamente das condições naturais. O objetivo é proteger esses arquivos de riscos humanos e falhas técnicas, assegurando que as próximas gerações possam acessar diretamente a composição química da atmosfera terrestre tal como ela se apresenta hoje.

Dados fundamentais

Os núcleos de gelo funcionam como arquivos ambientais do planeta. A cada nova camada acumulada, ficam registrados níveis de gases de efeito estufa, partículas de erupções vulcânicas, poluentes industriais e traços de eventos climáticos extremos. Esses dados são fundamentais para compreender as variações do clima no passado e aprimorar projeções sobre o futuro.

O problema é que o próprio aquecimento global ameaça essas fontes de informação. O recuo acelerado de geleiras de montanha é um dos sinais mais evidentes, e algumas delas podem desaparecer ainda neste século. Sem a coleta urgente, uma parte significativa da memória climática da Terra corre o risco de se perder definitivamente.

O santuário antártico surge justamente para evitar esse apagamento. Em janeiro deste ano, a instalação recebeu seu primeiro grande carregamento de amostras. Entre elas, estava um núcleo extraído em 2016 do Mont Blanc, na França, e outro coletado em 2025 no Grand Combin, na Suíça.

Transporte de amostras

As amostras foram transportadas até a Antártida a bordo do navio quebra-gelo de pesquisa Laura Bassi, mantidas em um compartimento refrigerado a -20 °C durante toda a travessia. A viagem começou na Europa em meados de outubro de 2025 e se estendeu por mais de cinquenta dias.

Ao longo do trajeto, os cilindros de gelo cruzaram o Mediterrâneo, o Atlântico, o Pacífico, o Oceano Antártico e o Mar de Ross, até chegarem ao continente gelado em 7 de dezembro de 2025. Cada etapa exigiu monitoramento rigoroso da cadeia de frio, já que qualquer variação de temperatura poderia comprometer os dados climáticos preservados no interior do gelo.

A inauguração do santuário marca o início do primeiro arquivo global dedicado às geleiras de montanha. A expectativa é que, nos próximos anos, núcleos provenientes de diferentes regiões do planeta sejam incorporados ao acervo.

Segundo os cientistas envolvidos, o armazenamento de longo prazo permitirá que tecnologias futuras analisem essas amostras com métodos mais avançados.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.