Cientistas devem perfurar parte mais frágil da Geleira do Juízo Final; entenda!
Com extensão semelhante à da Grã-Bretanha, a chamada Geleira do Juízo Final é considerada vital para o equilíbrio climático global

Nos próximos dias, uma equipe de cientistas realizará uma perfuração em uma das regiões mais frágeis e menos compreendidas da geleira Thwaites, localizada na Antártida Ocidental. Esta geleira, que possui uma extensão semelhante à da Grã-Bretanha, é considerada vital para o equilíbrio climático global. A formação recebeu o apelido de “Geleira do Juízo Final” devido ao seu potencial impacto no aumento do nível dos oceanos.
Estudos indicam que, caso a geleira Thwaites venha a colapsar, o nível global do mar poderá elevar-se em até 65 centímetros, o que seria suficiente para submergir diversas comunidades costeiras. Segundo o portal O Globo, a situação é ainda mais preocupante considerando que a geleira atua como uma barreira; sua desintegração poderia acelerar o derretimento da Calota de Gelo da Antártida Ocidental, resultando em um aumento do nível do mar entre um e dois metros ou até mais.
Uma missão inédita
Apesar da relevância da Thwaites, os mecanismos oceânicos que contribuem para o derretimento desta geleira permanecem pouco claros. Para abordar essa questão, pesquisadores do British Antarctic Survey (BAS) iniciaram uma missão inovadora: utilizar água aquecida para realizar perfurações de até mil metros de profundidade em áreas próximas à linha de aterramento, que é o ponto no qual a geleira deixa de estar apoiada no fundo do mar e começa a flutuar.
O oceanógrafo físico Peter Davis, membro do BAS, destacou a importância deste estudo: “Esta é uma das geleiras mais importantes e instáveis do planeta, e finalmente podemos ver o que está acontecendo onde mais importa.” A perfuração permitirá que os cientistas monitorem em tempo real a interação entre a água quente do oceano e o gelo em grandes profundidades.
A expedição, que conta com a colaboração do Instituto Coreano de Pesquisa Polar (KOPRI), partiu da Nova Zelândia a bordo do navio RV Araon e levou três semanas para alcançar a região da geleira Thwaites.
Antes de iniciar as atividades sobre o gelo, um veículo controlado remotamente foi enviado para mapear fendas ocultas. Após encontrar um local seguro, os equipamentos necessários foram transportados por helicóptero em mais de 40 viagens ao longo de uma distância de 29 quilômetros.
Won Sang Lee, líder da expedição pelo KOPRI, comentou sobre os desafios enfrentados: “Chegar até aqui já foi um desafio sem garantias, e estar pronto para instalar esses instrumentos é um testemunho da experiência das equipes envolvidas.” Os cientistas dispõem de apenas duas semanas para completar a perfuração e instalar os dispositivos necessários.
Técnica utilizada
A técnica empregada pelo BAS consiste em utilizar água aquecida a aproximadamente 90 °C, que é bombeada sob alta pressão para abrir um orifício com cerca de 30 centímetros de diâmetro. Devido às condições extremas, o buraco tende a congelar novamente em um ou dois dias, exigindo que as perfurações sejam realizadas repetidamente.
A equipe coletará dados sobre temperatura e correntes oceânicas sob a plataforma de gelo e amostras de sedimentos e água para analisar o comportamento histórico e atual da geleira. “Pela primeira vez, receberemos dados diários de debaixo da plataforma de gelo, perto da linha de aterramento”, explicou Davis. “Isso é fundamental para estimar a rapidez com que o nível do mar pode subir.”
Dados cruciais
Embora a missão envolva riscos, os pesquisadores acreditam que os dados obtidos poderão ser cruciais para aprimorar as previsões climáticas e fornecer mais tempo para que governos e comunidades costeiras se preparem adequadamente. “Milhões de pessoas vivem em áreas que dependem da estabilidade da Thwaites”, ressaltou a equipe. “Com melhores informações, será possível planejar e se adaptar antes que seja tarde demais.”