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Casamento e filhos: por dentro da vida íntima de Dom Pedro II

Saiba como era o convívio do imperador Dom Pedro II com Teresa Cristina e os filhos, de acordo com historiadores

Fotografia de Dom Pedro II e sua família / Crédito: Domínio Público

Dom Pedro II, o último imperador do Brasil, era um homem preso às exigências do trono. Vivia um casamento arranjado e, ao contrário do que muitos imaginam, cultivava uma rotina muito mais burguesa do que principesca.

A intimidade da família imperial seguia padrões próprios da realeza do século 19. Como destaca o pesquisador e escritor Paulo Rezzutti, Dom Pedro II e Teresa Cristina tinham ambos funções públicas permanentes. Ela, envolvida em comitês de beneficência, arrecadações, fundações de asilos e hospitais; ele, ocupado com visitas, obras sociais, despachos políticos, gabinetes instáveis e, em tempos de conflito, até mesmo a presença no front, como na Guerra do Paraguai, quando esteve na retomada de Uruguaiana. Havia, portanto, uma rotina de compromissos que os afastava tanto entre si quanto dos filhos.

As crianças da família imperial, por sua vez, viviam sob uma carga intensa de estudos e etiqueta. Não havia convivência espontânea. Esse distanciamento aparece de maneira nítida nas cartas trocadas pelas princesas com os pais.

Havia afeição genuína – carinho, admiração, um amor sincero – mas pouco contato. Muitas vezes estavam todos no mesmo palácio sem oportunidade de se ver. “A Princesa Isabel, por exemplo, só quando ela faz 18 anos, 16 anos, é que ela passa a frequentar a mesa com os pais”, aponta o historiador.

Amante do Imperador?

A Condessa de Barral, muitas vezes citada como possível amante de Dom Pedro II, também surge na análise de Rezzutti. Porém, de acordo com ele, as cartas trocadas entre Barral e o imperador são íntimas no sentido emocional: há cumplicidade profunda, confidências, afinidade intelectual. Contudo, não há nelas comprovação de relação sexual. Rezzutti observa ainda que as cartas que Pedro II escreveu a outras mulheres, algumas inclusive pouco estudadas e preservadas na Biblioteca Nacional, eram muito mais sensuais do que aquelas destinadas a Barral.

Para ele, se houve algo entre o imperador e a condessa, teria ocorrido apenas depois da morte do marido dela e em períodos nos quais quase não se encontraram, já que Barral deixou o Brasil após terminar seu trabalho como aia e só voltou a ver Pedro II esporadicamente, em viagens dele à Europa, em 1876, 1887 e já no exílio, em 1891.

“Antes eu acho bem improvável que tenha sido. Enfim, é um mistério até hoje. São muito íntimas as cartas, eles trocam muitas confidências, são pessoas que se conhecem muito profundamente, mas não há como comprovar pelas cartas trocadas que houve realmente um relacionamento sexual entre eles”, declarou.

D. Pedro II em fotografia de Joaquim Insley Pacheco
D. Pedro II em fotografia de Joaquim Insley Pacheco – Domínio Público

Afetuoso, mas distante

A perspectiva de Mauro Henrique Miranda de Alcântara , autor de “D. Pedro II e a emancipação dos escravos”, complementa o retrato do imperador ao destacar o caráter contraditório de Pedro II. Nos documentos que analisou – especialmente cartas e diários – o imperador surge como um pai afetuoso, porém distante, em função das inúmeras viagens oficiais. O casamento com Teresa Cristina, arranjado por razões políticas, desenvolveu-se ao longo dos anos como uma parceria de estima e respeito, mais sólida na convivência do que na paixão.

Uma das observações mais reveladoras de Alcântara diz respeito ao estilo de vida imperial: longe dos excessos aristocráticos europeus, Pedro II cultivava uma simplicidade quase burguesa. Essa postura não era apenas preferência pessoal, mas também uma construção simbólica. 

A simplicidade burguesa da família imperial, não o luxo aristocrático, é algo que destaco na minha pesquisa – reflete essa identidade de “cidadão” que ele cultivava”, apontou.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.