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Cabelos preservados detalham exposição ao chumbo nos EUA no século 20

Em novo estudo, cabelos preservados do século 20 revelam o quão prejudicial a exposição ao chumbo era na época, nos Estados Unidos; confira!

Amostras de cabelo analisadas em novo estudo / Crédito: Divulgação/Diego Fernandez

Um novo estudo científico mostra como a exposição ao chumbo nos Estados Unidos diminuiu drasticamente após a criação da Agência de Proteção Ambiental (EPA), há cerca de 55 anos. A pesquisa, publicada na revista PNAS na segunda-feira, 2, analisou amostras históricas de cabelo humano e demonstrou a eficácia das regulamentações ambientais voltadas ao controle da poluição por metais pesados.

O chumbo é utilizado pelos seres humanos há milênios, mas seus efeitos tóxicos só foram amplamente reconhecidos no século 20. Para investigar o impacto dessa exposição ao longo do tempo, pesquisadores analisaram mechas de cabelo de 47 pessoas que viveram na região metropolitana de Salt Lake City, em Utah, tanto na infância quanto na vida adulta. As amostras infantis haviam sido preservadas em álbuns de família, enquanto o cabelo atual foi coletado diretamente dos participantes.

Temos amostras de cabelo que abrangem cerca de 100 anos”, afirmou em comunicado Ken Smith, demógrafo da Universidade de Utah e coautor do estudo. Segundo ele, “na época em que não havia regulamentação”, os níveis de chumbo “eram cerca de 100 vezes maiores do que são agora, depois da implementação das regulamentações”.

Histórico de contaminação

As análises foram feitas por meio de espectrometria de massa, técnica capaz de identificar compostos químicos em amostras biológicas. Os resultados revelaram que as concentrações de chumbo no cabelo humano permaneceram extremamente elevadas entre 1916 e 1969. Esse cenário se deveu tanto à ausência de regulamentação ambiental quanto à operação de duas fundições de chumbo na região de Salt Lake City.

A partir da década de 1970, no entanto, os níveis começaram a cair de forma acentuada. A criação da EPA em 1970, durante o governo do presidente Richard Nixon, marcou um ponto de virada. Além disso, o fechamento das fundições contribuiu para a redução da contaminação. Entre as décadas de 1970 e 1990, os valores médios de chumbo no cabelo diminuíram em duas ordens de magnitude.

As concentrações atuais de chumbo no cabelo dessa população são, em média, quase 100 vezes menores do que antes da criação da Agência de Proteção Ambiental”, escreveram os pesquisadores.

Uma das principais fontes de contaminação por chumbo ao longo do século 20 foi a gasolina com chumbo. Desde a década de 1920, o tetraetilchumbo foi adicionado ao combustível para reduzir a detonação do motor. Embora o Serviço de Saúde Pública dos EUA já tivesse identificado problemas de saúde associados ao aditivo em 1925, a proibição total da gasolina com chumbo no país só ocorreu em 1996.

Riscos atuais

Vale mencionar que a exposição ao chumbo é altamente prejudicial à saúde humana, podendo causar danos ao sistema nervoso, atrasos no desenvolvimento, convulsões, dificuldades de aprendizagem, além de aumentar o risco de infertilidade e hipertensão. Não existe um nível seguro conhecido de exposição ao metal, destaca o Live Science.

Os pesquisadores alertam, no entanto, que os níveis de chumbo no cabelo não correspondem exatamente às concentrações no sangue, que são o padrão clínico para diagnóstico. Ainda assim, essas amostras indicam a exposição ambiental geral. “Não registra exatamente a concentração sanguínea interna que o cérebro percebe, mas informa sobre a exposição ambiental geral”, explicou Thure Cerling, geólogo da Universidade de Utah e coautor do estudo. Segundo ele, antes de 1970, as pessoas absorviam quantidades significativamente maiores do metal. “Simplesmente sai do escapamento, sobe no ar e depois desce”, disse. O chumbo permanece suspenso por dias, “é absorvido pelo cabelo, você o respira e ele vai para os pulmões”.

Apesar dos resultados positivos, os autores alertam para riscos atuais. Eles mencionam um anúncio feito em 12 de março de 2025 pela EPA e pelo presidente Donald Trump, que prevê a desregulamentação de diversas normas ambientais. Embora o chumbo não seja citado diretamente, especialistas veem o plano como um “roteiro” para a revogação de regras sobre poluição industrial e emissões de usinas de carvão.

“Não devemos esquecer as lições da história”, afirmou Cerling. “Essas regulamentações foram muito importantes”, como mostram os “efeitos realmente muito positivos” observados logo após a criação da EPA. O estudo conclui que padrões ambientais frouxos resultaram em níveis prejudiciais de chumbo, mas que esses impactos podem ser controlados por meio de “regulamentações baseadas na ciência”.

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.