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Cabeças masculinas são encontradas em fossa na China

Novas análises de DNA revelam que quase todos as 80 cabeças encontradas na entrada da antiga cidade de Shimao pertencem a homens

Imagem ilustrativa - Crédito: Getty Images

Uma descoberta arqueológica recente trouxe novas interpretações sobre práticas rituais na antiga cidade chinesa de Shimao, localizada na província de Shaanxi. Pesquisadores identificaram uma fossa contendo cerca de 80 cabeças humanas posicionadas logo fora dos portões da cidade. A análise genética dos restos mortais revelou que quase todas as vítimas eram homens, o que indica que os sacrifícios realizados ali seguiam padrões diferenciados por sexo.

Shimao foi ocupada aproximadamente entre 2300 a.C. e 1800 a.C. e já era conhecida por sua complexidade arquitetônica e social. A cidade possuía muralhas de pedra, estruturas defensivas, áreas residenciais, oficinas artesanais e até mesmo uma pirâmide em degraus. Anteriormente, acreditava-se que os sacrifícios humanos da época estavam ligados, sobretudo, a contextos funerários de elite, envolvendo majoritariamente mulheres que eram enterradas ao lado de líderes ou figuras importantes como parte de um ritual de servidão na vida após a morte.

Ritual das cabeças

O estudo recente, no entanto, mudou essa visão. Ao sequenciar o DNA recuperado da fossa, os cientistas constataram que cerca de noventa por cento dos crânios pertenciam a indivíduos do sexo masculino. Além disso, suas características genéticas eram muito semelhantes às das pessoas enterradas nas tumbas formais da própria cidade. Isso enfraquece a hipótese de que os sacrificados fossem inimigos capturados em conflito ou estrangeiros usados como oferendas. As evidências apontam para a possibilidade de que eles fossem parte da comunidade local.

A concentração de crânios masculinos na área externa do portão leste sugere um tipo específico de ritual. Os arqueólogos levantam a hipótese de que esses sacrifícios coletivos estivessem ligados a cerimônias públicas, talvez relacionadas à construção, proteção espiritual ou consagração de estruturas importantes da cidade, como muros e portões. Em contraste, os sacrifícios femininos estariam associados a rituais privados, vinculados ao sepultamento de membros da elite.

Outro aspecto revelado pelas análises é que o sistema de parentesco em Shimao provavelmente era patrilinear. As linhagens masculinas parecem ter ocupado a base da herança social, enquanto muitas mulheres de status elevado parecem ter vindo de fora da comunidade, o que reforça a ideia de casamentos estratégicos com outros grupos. Esse quadro ajuda a explicar por que os sacrifícios públicos teriam recaído principalmente sobre homens: eles ocupavam um papel central tanto na estrutura social quanto nas práticas rituais.

A descoberta da fossa de crânios fornece uma janela rara para compreender a organização simbólica, política e religiosa de uma das sociedades mais fascinantes da pré-história chinesa. Longe de serem atos aleatórios de violência, os sacrifícios parecem ter seguido um padrão estruturado, determinado pelo gênero e por funções distintas dentro da comunidade. O achado transforma a maneira como pesquisadores interpretam as relações entre poder, morte ritual e identidade social em antigas civilizações da região.

Jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero e nerd desde o berço, sou dono de uma mente inquieta que sempre tem mais perguntas que respostas. Vez ou outra, você pode ler textos meus sobre curiosidades históricas, música, ciência e cultura pop.