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Alexander Butterfield, peça-chave no caso Watergate, morre aos 99 anos

Ex-assessor de Richard Nixon, Alexander Butterfield revelou ao Senado a existência do sistema secreto de gravações da Casa Branca durante investigação do escândalo de Watergate

Alexander Butterfield em 1973 / Crédito: Getty Images

Alexander Porter Butterfield, ex-assessor do presidente dos Estados Unidos Richard Nixon que revelou ao Senado a existência do sistema de gravações secretas da Casa Branca, e uma peça central para a revelação do escândalo de Watergate, morreu aos 99 anos. A morte ocorreu na segunda-feira, 9 de março, em sua casa em La Jolla, na Califórnia.

A informação foi confirmada à Associated Press por sua esposa, Kim Butterfield, e por John Dean, que atuou como conselheiro da Casa Branca durante o escândalo de Watergate.

Nascido em 6 de abril de 1926, em Pensacola, na Flórida, ele ingressou na Força Aérea dos Estados Unidos em 1948. Durante a Guerra da Coreia, atuou como instrutor em uma base próxima a Las Vegas e, posteriormente, serviu na Alemanha.

Ao longo de duas décadas de carreira militar, alcançou o posto de coronel antes de se aposentar da Força Aérea. Durante esse período, também desempenhou funções no Departamento de Defesa e representou os Estados Unidos em posições militares internacionais, incluindo na Austrália.

Butterfield concluiu o bacharelado pela Universidade de Maryland em 1956 e obteve um mestrado pela Universidade George Washington em 1967. Décadas depois, em 1994, também concluiu um mestrado na Universidade da Califórnia em San Diego.

Alexander Butterfield em 2015 e em 1973 / Crédito: Getty Images

Watergate

Butterfield ficou historicamente conhecido por seu depoimento em 1973 diante do Comitê Watergate do Senado dos Estados Unidos. Foi durante essa audiência que ele revelou publicamente a existência do sistema de gravação instalado por Nixon na Casa Branca, o que posteriormente permitiu que investigadores tivessem acesso a conversas decisivas sobre o caso.

“Ele tinha a grande responsabilidade de revelar algo sobre o qual jurou segredo, que é a instalação do sistema de gravação de Nixon”, disse Dean à AP. “Ele se levantou e disse a verdade.”

O depoimento ocorreu em 16 de julho de 1973, quando Butterfield compareceu perante o painel do comitê do Senado que investigava o escândalo. Na ocasião, ele era chefe da Administração Federal de Aviação (FAA) e havia atuado anteriormente como assessor da Casa Branca.

Durante o interrogatório conduzido pelo senador Fred Thompson, republicano do Tennessee e conselheiro da minoria no comitê Watergate, Butterfield afirmou que poucas pessoas tinham conhecimento da existência do sistema de gravações. Segundo ele, além do próprio presidente, apenas o chefe de gabinete da Casa Branca, H.R. Haldeman — a quem conheceu enquanto estudava na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) — e alguns agentes do Serviço Secreto sabiam do equipamento.

“Tudo foi gravado… enquanto o presidente estivesse presente”, disse Butterfield ao painel ao depor sob juramento durante uma entrevista preliminar.

As fitas posteriormente revelaram o envolvimento de Nixon no acobertamento do arrombamento ocorrido em 1972 na sede do Partido Democrata, localizada no complexo Watergate, em Washington.

Diante das evidências, a Suprema Corte dos Estados Unidos determinou que o presidente entregasse as gravações aos promotores responsáveis pela investigação. Um mês após essa decisão, e para evitar um processo de impeachment, Nixon renunciou à presidência em 9 de agosto de 1974.

Anos depois, Butterfield afirmou que não se sentia confortável por ter sido um fator que contribuiu para a queda do presidente, embora reconhecesse o peso de seu depoimento. “Eu não gostava de ser a causa disso, mas sentia que, de muitas maneiras, era”, disse Butterfield, referindo-se à renúncia de Nixon, em uma entrevista de 2008 para a Biblioteca e Museu Presidencial Nixon.

Na mesma entrevista, ele afirmou que tinha consciência da gravidade do conteúdo das gravações: “Eu só pensava: ‘Quando eles ouvirem essas gravações…’ Quer dizer, eu sabia o que havia nessas gravações… elas são explosivas”, acrescentou. “Acho que não previ que o presidente pudesse ser destituído do cargo ou sofrer um processo de impeachment, mas imaginei que seriam alguns anos perigosos para ele. Acho que não conseguia conceber que (Nixon) fosse forçado a deixar o cargo. Nunca tinha acontecido antes.”

Butterfield atuou como assistente adjunto de Nixon entre 1969 e 1973. Ele deixou a Casa Branca para assumir o cargo de administrador da Administração Federal de Aviação pouco antes de ser chamado a depor no Senado.

Posteriormente, ele afirmou acreditar que foi demitido da FAA em 1975 pelo então presidente Gerald Ford como parte de um acordo político envolvendo as equipes de Ford e Nixon. Após deixar o cargo público, Butterfield seguiu carreira no setor privado como executivo de negócios na Califórnia, repercute a People.

Segundo o livro de 2015 do jornalista Bob Woodward, “The Last of the President’s Men” (“O Último Homem do Presidente”, em português), publicado pelo The New York Times, Butterfield revelou ter sentido alívio no dia da renúncia de Nixon.

“Eu não conseguia acreditar que havia pessoas chorando naquela sala”, disse Butterfield, segundo Woodward. “Foi triste, sim. Mas a justiça prevaleceu. Por dentro, eu estava comemorando. Era isso que eu estava fazendo. Eu estava comemorando.”

Éric Moreira é jornalista, formado pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo. Passa a maior parte do tempo vendo filmes e séries, interessado em jornalismo cultural e grande amante de Arte e História.