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280 mausoléus feitos há 5.000 anos são encontrados no Saara

Arqueólogos conseguem identificar cerca de 280 monumentos funerários espalhados pelo Sudão; estruturas podem revelar cultura perdida de 5.000 anos

Fotografia de estrutura funerária feita há cerca de 5.000 anos
Fotografia de estrutura funerária feita há cerca de 5.000 anos - Créditos: Divulgação/Cortesia do Museo Castiglioni / Cooper et al., The African Archaeological Review (2026)

Recentemente, estudos do deserto de Atbai, no Sudão, localizaram centenas de monumentos funerários de pedra ligados a uma sociedade de 5.000 anos atrás. Esse povo vivia da criação de gado entre o Vale do Nilo e o Mar Vermelho e viu o deserto secar.

Conforme a revista African Archaeological Review, na qual as descobertas foram publicadas no fim do mês passado, o estudo só foi possível pela utilização de tecnologias recentes para poder localizar os monumentos funerários.

A pesquisa

Através do sensoriamento remoto via satélite os pesquisadores conseguiram localizar cerca de 280 estruturas de pedra espalhadas pelo deserto. Porém, vale destacar que apenas cerca de 20 deles tinham sido documentados em trabalhos de campo anteriores.

Assim, os pesquisadores conseguiram perceber uma repetição e similaridades em diversos desses locais, característica que possivelmente os colocaria como uma única cultura. Dessa forma, o novo estudo agrupou as estruturas sob o nome de Atbai Enclosure Burials, ou AEBs.

Conforme o Archaeology News, as estruturas foram encontradas em grupos circulares murados, cada um com algumas variações. Alguns tinham portas e diâmetro de até 82 metros de extensão, já outros apenas 5 de diâmetro e eram completamente murados. De todo modo, os monumentos se estendem por boa parte do Alto Egito até as fronteiras da Eritreia.

Apesar da novidade, vale destacar que provavelmente alguns monumentos desapareceram com o tempo. Erosões, inundações e até mesmo escavações de minas próximas de lugares como esses podem ter apagado uma parte da história.

Ainda que esse povo tenha vivido perto do Egito e da Núbia, regiões largamente estudadas, pouquíssimo se sabe sobre os povos que viveram na região há 5.000 anos.

A cultura antiga

Os arqueólogos envolvidos no caso destacam a importância do gado para a população local. Conforme o estudo, dentro dos monumentos funerários haviam ossadas humanas, mas principalmente ossos de animais de gado, como vacas e ovelhas.

Ou seja, mesmo levando um estilo de vida nômade, não deixaram de construir seus cemitérios e de criar o próprio gado. Alguns podem se perguntar: “Como criavam gado no deserto?”

Acontece que essa região nem sempre foi árida como conhecemos hoje. Há 5.000 anos atrás, chuvas, fontes de água e populações eram mais frequentes na região. Assim, os povos conseguiam se organizar para viver no local.

Contudo, com o tempo, a região foi se desertificando e poucos povos permaneceram na região. Esses movimentos sazonais e de adaptação podem ser vistos nas tumbas construídas pelo povo estudado pelo artigo.

Uma característica destacada pelos arqueólogos é que provavelmente essas estruturas funerárias reuniam toda a comunidade na sua construção. Isso porque, seguindo as estimativas, para uma cerca de 60 metros seria necessário cerca de 50 trabalhadores para construir o local em 3 dias.

Ademais, os cientistas identificaram que boa parte dos “cemitérios” estavam localizados próximos de rotas entre fontes confiáveis de água, sinal claro de conhecimento da região, ou seja, repetição geracional da rota.

Junto das tumbas, em algumas estruturas foram localizados desenhos rupestres do gado da época, símbolo de valorização e importância para a vida daquela população. Entretanto, uma informação surpreendente é que, segundo as datas de radiocarbono, os monumentos foram construídos entre 4.500 e 2.500 antes de Cristo.

De todo modo, a pesquisa encontrou vestígios históricos que podem nos contar um pouco mais sobre os antepassados da humanidade e de como a humanidade reagiu quando o Saara secou.


*Sob supervisão de Éric Moreira

Historiador em formação que troca qualquer "sextou" por fofocas de época e análise econômica. Traduzo o mundo via cultura, provando que o passado é o melhor spoiler do presente. Quer entender como a engrenagem realmente gira? O convite para a viagem está nos meus artigos: