Juventude e justiça: Série que debate o sistema penal brasileiro estreia na TV

A estreia de De Menor – A Série no Canal Brasil coloca a juventude em conflito com a lei e o sistema penal brasileiro no centro do horário nobre.

Juventude e justiça: Série que debate o sistema penal brasileiro estreia na TV

A estreia de De Menor – A Série no Canal Brasil coloca a juventude em conflito com a lei e o sistema penal brasileiro no centro do horário nobre. A produção, derivada do longa de 2013, abandona o formato tradicional de drama de tribunal e aposta em uma linguagem híbrida que mistura teatro, musical, games, podcast e reacts. Em seis episódios, o projeto examina as engrenagens que empurram adolescentes para dentro da máquina judiciária e expõe, sem disfarces, as estruturas que moldam essas trajetórias. Além disso, a série atualiza o debate sobre encarceramento juvenil e responsabilização do Estado. A primeira leva de exibições inéditas segue em blocos duplos, sempre às 20h30.

A premissa parece simples de descrever, porém se revela complexa de encarar. Cada episódio acompanha jovens em situação de vulnerabilidade diante do sistema de justiça criminal, com foco nas audiências e na forma como instituições lidam com esses corpos. Em vez de recriar fóruns realistas, a produção se instala em um palco de teatro com bastidores à mostra. Dessa forma, a encenação reflete a ideia de que tanto o julgamento quanto a realidade social em torno dele surgem como construções. A série entra na grade do Canal Brasil entre os dias 25 e 27 de junho, com dois capítulos seguidos por noite.

Como “De Menor – A Série” transforma o sistema penal em espetáculo exposto?

A chave estética da série consiste em assumir o artifício. Assim, o palco, as coxias, a iluminação aparente e as estruturas técnicas permanecem visíveis durante as audiências encenadas. Nada imita fielmente um tribunal. Pelo contrário, a encenação ressalta que o próprio sistema penal também funciona como um grande teatro social. Juízes, promotores, defensores e adolescentes ocupam posições pré-determinadas e repetem rituais que se misturam à rotina da exclusão.

Nesse cenário, a obra discute a justiça criminal juvenil a partir de histórias que atravessam temas como desigualdade, violência institucional e abandono do Estado. Ao manter os bastidores escancarados, a diretora convida o público a perceber quais papéis o sistema impõe a esses jovens. Além disso, evidencia quais mecanismos reforçam a sensação de inevitabilidade nas decisões judiciais. O foco não recai apenas no crime descrito nos autos. Em vez disso, avança por tudo que vem antes e depois da audiência.

Essa abordagem apresenta a juventude em conflito com a lei menos como exceção e mais como sintoma de um sistema de oportunidades desiguais. A série trata o caso judicial como ponto de encontro entre biografias atravessadas pela precariedade e um aparelho jurídico que tenta organizar essas trajetórias em códigos e artigos. O palco aberto funciona como metáfora para esse encontro entre narrativa oficial e experiência vivida. Ao mesmo tempo, a encenação provoca o espectador a questionar sua própria posição nesse jogo de olhares.

A chave estética da série consiste em assumir o artifício. – Foto: Reprodução

Juventude e justiça: qual é o foco da temporada?

A palavra-chave que atravessa a temporada consiste justamente em juventude e justiça. Cada episódio aborda um recorte específico dessa combinação, sempre a partir de adolescentes que chegam ao sistema por caminhos diferentes. A estrutura narrativa acompanha as audiências, mas amplia o olhar para o entorno. Assim, inclui família, bairro, escola, ausência de políticas públicas e conflitos com a polícia. O caso penal vira guia para entender o país que produz aqueles processos.

No primeiro episódio, o foco recai sobre Davi, apelidado de “Cem Mil”. O nome faz referência direta ao número simbólico de jovens afetados pela violência institucional no Brasil. Detido por tráfico após uma abordagem policial, o personagem sintetiza o encontro entre um histórico de vulnerabilidade e uma lógica repressiva que se repete em diferentes territórios urbanos. A audiência do garoto, encenada no palco nu, leva o público a acompanhar não só o procedimento jurídico. Conduz também o espectador pelo percurso que empurra Davi até ali, incluindo amigos, família e escolhas marcadas pela falta de opções.

A temporada trabalha constantemente com a tensão entre responsabilização individual e contexto social. A narrativa deixa claros os fatos que levam os adolescentes à Justiça. Ao mesmo tempo, evidencia a presença de desigualdade estrutural, racismo e políticas de segurança baseadas em repressão. Em vez de transformar a trama em panfleto, a série constrói situações e diálogos que expõem as contradições do sistema penal juvenil e os limites de sua capacidade de reparação. Assim, o público identifica na ficção elementos que também reconhece no noticiário e no cotidiano.

Por que a série mistura musical, podcast, games e reacts?

Para falar de sistema de justiça penal brasileiro com e sobre jovens, a direção opta por uma linguagem híbrida. Cada episódio experimenta um formato diferente, aproximando o debate das formas de consumo de conteúdo atuais. Um capítulo assume a estrutura de musical, enquanto outro se organiza como podcast. Há ainda variações que lembram game show, talk show e programa de TV. Em comum, todos mantêm o palco de teatro como base visual.

O episódio em formato de musical utiliza canções e coreografias para sublinhar emoções e conflitos que, em um processo real, costumam ficar escondidos sob termos técnicos e burocracia. Já a estrutura de podcast explora conversas, relatos e reflexões em tom mais íntimo. Assim, os envolvidos comentam o próprio caso fora da formalidade da sala de audiência. O game show e as dinâmicas inspiradas em programa televisivo escancaram a dimensão de espetáculo presente na cobertura midiática de crimes envolvendo jovens. Além disso, esses formatos revelam como a sociedade transforma sofrimento em entretenimento.

Ao incorporar linguagem de internet, como games e reacts, a série se alinha à forma como a juventude consome narrativas hoje. Comentários em tempo real, reações performáticas e elementos de jogabilidade entram em cena para discutir escolhas, consequências e julgamentos rápidos feitos por quem assiste de fora. Esse recurso reforça o questionamento sobre quem detém o poder de dizer o que é certo ou errado e em quais bases essa avaliação se constrói. Desse modo, o público se vê diante de um espelho que reflete também seus próprios impulsos de julgamento nas redes.

Quem está por trás da série e o que esperar da exibição no Canal Brasil?

A concepção de De Menor – A Série leva a assinatura de Caru Alves de Souza, cineasta que já explorou a adolescência em situações-limite no filme original e em “Meu Nome é Bagdá”. Na nova produção, a diretora trabalha com roteiro e criação de forma colaborativa, aproximando elenco e equipe de decisões estéticas e narrativas. Esse processo coletivo favorece atuações mais orgânicas e uma escuta atenta às vivências que inspiram as histórias. Além disso, o método de criação compartilhada reforça o compromisso político do projeto com as realidades retratadas.

O elenco principal reúne Benjamín, Giulia Del Bel, Grace Orsato, Luan Carvalho, Taciana Bastos, William Costa e Carlota Joaquina. O grupo transita entre o realismo de depoimentos e a fisicalidade exigida pelo palco teatral. Em vários momentos, canta, dança ou interage com formatos que lembram programas de entretenimento. A interpretação acompanha as quebras de linguagem, sem perder de vista que o centro da série permanece sempre na experiência desses adolescentes diante da Justiça. Por isso, cada personagem carrega nuances que evitam estereótipos simples de vítima ou vilão.

Quando assistir a estreia?

Na TV, a primeira janela de exibição acontece no Canal Brasil, com blocos em sequência entre 25 e 27 de junho, sempre às 20h30, com dois episódios exibidos por noite. A apresentação em duplas favorece a maratona e permite perceber o contraste entre os diferentes formatos adotados. Antes de chegar ao público brasileiro, a produção passou pela mostra Generation 14plus do Festival de Berlim, focada justamente em obras que dialogam com o universo jovem. Essa circulação internacional indica o interesse crescente por narrativas que encaram a violência de Estado a partir do olhar dos mais novos.

A partir dessa estreia, a discussão sobre juventude e justiça ganha um novo espaço na TV aberta à experimentação estética, misturando teatro, linguagens digitais e crítica social. Assim, o Canal Brasil amplia seu repertório de obras que investigam direitos humanos, racismo e segurança pública. Resta acompanhar como essa combinação de forma e conteúdo reverbera entre espectadores que convivem diariamente com o tema, seja pelas notícias, seja pela realidade à volta. Também vale observar se a série abre caminho para outras narrativas que encarem o sistema penal juvenil de frente, sem filtros nem cortinas fechadas.

O elenco principal reúne Benjamín, Giulia Del Bel, Grace Orsato, Luan Carvalho, Taciana Bastos, William Costa e Carlota Joaquina. – depositphotos.com / HayDmitriy

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