Amor e resistência em 1984: Apenas Coisas Boas chega aos cinemas
Um amor queer que nasce em 1984, no meio da zona rural de Goiás, atravessa quatro décadas de silêncio, luto e preconceito em Apenas Coisas Boas, novo longa de Daniel Nolasco que acaba de chegar aos cinemas brasileiros.
Um amor queer que nasce em 1984, no meio da zona rural de Goiás, atravessa quatro décadas de silêncio, luto e preconceito em Apenas Coisas Boas, novo longa de Daniel Nolasco que acaba de chegar aos cinemas brasileiros. O diretor, o mesmo de Vento Seco, volta ao interior e desmonta a figura do homem bruto do campo ao colocar no centro um romance entre um fazendeiro fechado e um motoqueiro acidentado. Como resultado, o filme entrega um drama de atmosfera densa, com erotismo e afeto em plena região conservadora, e ainda amplia o retrato do Brasil profundo contemporâneo.
Lançado comercialmente no fim de junho de 2026, o filme ocupa as salas depois de circular em festivais e acumular prêmios, sobretudo no Olhar de Cinema, em Curitiba. Em vez de apostar em diálogos longos ou em explicações didáticas, a produção utiliza planos demorados, pouca fala e sons da natureza para construir tensão. Além disso, a classificação para maiores de 18 anos já indica o terreno: um melodrama de suspense, com nudez, violência e desejo. Isso tudo atravessando cada fase da vida desse casal, mas também abrindo espaço para momentos de ternura e respiro.
O que torna Apenas Coisas Boas um romance de 1984 tão atual?
A palavra-chave aqui é Amor e resistência em 1984. A trama começa na região rural de Catalão. Ali, Antônio, fazendeiro taciturno que vive isolado em sua propriedade, encontra Marcelo, motoqueiro misterioso de jaqueta de couro que sofre um acidente na estrada próxima. Então ele decide acolher o desconhecido em casa e cuidar dos ferimentos. Assim, a convivência forçada, em um ambiente de poucas palavras e muitos gestos, cria espaço para uma paixão que escapa aos rótulos da época.
Esse começo tem cara de romance idílico. As paisagens abertas, o clima de segredo e o desejo surgindo aos poucos aparecem quase sempre sugeridos pelo enquadramento e pela forma como os corpos ocupam o quadro. Aos poucos, porém, o que surge como encontro improvável ganha camadas mais sombrias. Assim, a narrativa acompanha o envelhecimento dos dois sob a sombra do preconceito, da homofobia estrutural. E também da solidão que marca a terceira idade no interior, sem perder de vista pequenos instantes de alegria.
Como o filme retrata o amor e a resistência ao longo de quatro décadas?
O arco de Apenas Coisas Boas se estende por mais de 40 anos e exige do público um olhar paciente. Em vez de cortes rápidos ou reviravoltas constantes, Nolasco prefere mostrar o tempo passando no corpo e nos gestos do casal. Na juventude, Antônio surge na pele de Lucas Drummond. Já mais velho, ganha o rosto de Fernando Libonati. Marcelo aparece vivido por Liev Carlos na fase inicial e compõe com o fazendeiro uma dupla marcada por masculinidades diferentes, mas igualmente atravessadas pelo desejo.
O romance entre eles não se apresenta como conto de fadas. Em vários momentos, o filme se aproxima do suspense, com clima de ameaça e segredos dentro da casa. A homofobia ali não se limita a falas explícitas, pois também surge na forma como esse amor precisa se esconder, se adaptar e se recolher. Além disso, a solidão marca presença constante. Com o passar dos anos, o espaço rural, antes aparentemente acolhedor, ganha contornos de confinamento para esses corpos dissidentes e reforça um sentimento de cerco.
Nessa jornada, a resistência não assume tom grandiloquente. Ao contrário, aparece em ações pequenas e insistentes, em cada dia em que esse vínculo permanece vivo mesmo sob pressão social. O luto também entra em cena, misturado à culpa e à memória, e reforça a ideia de que amar naquele tempo e lugar significava aceitar uma série de riscos concretos.

Por que o visual de Apenas Coisas Boas chama tanta atenção?
A construção visual de Apenas Coisas Boas integra a narrativa tanto quanto o roteiro. Críticos destacam como o filme brinca com o imaginário hipermasculino popularizado por referências norte-americanas. O fazendeiro de camisa justa e o motoqueiro de couro lembram arquétipos que poderiam integrar um grupo como o Village People, deslocados para o interior goiano. Essa provocação intensifica o contraste entre aparência e vulnerabilidade e reforça uma certa ironia visual.
O longa trabalha o erotismo sem pressa. O corpo masculino, em vez de apenas símbolo de força ou brutalidade, aparece em momentos de cuidado, fragilidade e desejo. Além disso, a direção de arte, premiada no circuito de festivais, explora objetos, roupas e espaços internos para marcar o passar do tempo e as transformações desse relacionamento. Já a trilha de sons da natureza — vento, animais, o barulho da estrada — funciona quase como narrador silencioso e preenche os vazios entre uma fala e outra. Em várias cenas, o som do ambiente amplia a tensão e dispensa qualquer explicação verbal, ao mesmo tempo em que ancora o filme numa paisagem sonora tipicamente brasileira.
Como foi a trajetória de Apenas Coisas Boas nos festivais?
Antes de chegar ao circuito comercial, o drama queer de Daniel Nolasco percorreu um caminho consistente em festivais. A produção passou pelo Festival de Guadalajara, no México, um dos eventos mais relevantes da América Latina, e ali começou a chamar atenção pelo recorte de interior e pela forma direta de tratar o desejo entre homens sob clima de tensão. Depois desse início, a obra passou a ser comentada em programações especializadas em cinema LGBTQIAPN+.
Em seguida, o filme desembarcou no Olhar de Cinema, em Curitiba, e saiu de lá como um dos destaques da edição. A obra recebeu os prêmios de Melhor Roteiro, Melhor Som e Melhor Direção de Arte. Esses reconhecimentos reforçam a percepção de que a força do projeto se apoia tanto na história quanto na forma como a equipe filma e sonoriza essa narrativa. Além disso, esse prestígio no circuito de arte, aliado ao tema urgente, pavimentou a entrada no calendário de lançamentos de 2026 e ampliou o interesse internacional por Nolasco, que vem consolidando uma filmografia centrada em corpos dissidentes.
Quem compõe o elenco e quais personagens movimentam a trama?
O elenco de Apenas Coisas Boas mistura rostos conhecidos do cinema independente a nomes que ganham espaço recentemente. O fazendeiro protagonista, como já citado, fica dividido entre Lucas Drummond na juventude e Fernando Libonati na maturidade. O motoqueiro Marcelo surge interpretado por Liev Carlos, que carrega a aura de mistério essencial para o início da história e sustenta a ambiguidade do personagem ao longo do tempo.
Entre os coadjuvantes, destaca-se a presença de Renata Carvalho, figura central na cena teatral e cinematográfica contemporânea. Ela vive Helga, empregada que circula pela casa e tenta decifrar o que se passa entre paredes marcadas por segredos. Ao mesmo tempo, a personagem representa uma observadora silenciosa da violência simbólica que cerca o casal. Igor Leoni e Guilherme Théo completam o time, compondo o entorno social que reage, questiona e, às vezes, ameaça esse amor de longa duração. Assim, o elenco sustenta a passagem do tempo e dá corpo às diferentes fases da vida de Antônio e Marcelo, incluindo conflitos familiares, religiosos e econômicos que atravessam o interior brasileiro.
Onde assistir ao filme e o que esperar da experiência em sala?
Com distribuição nacional da Olhar Filmes, Apenas Coisas Boas entra em cartaz em cinemas voltados para o circuito de arte e produções independentes. A produção aparece em espaços como o Cine Metrópolis, em Vitória, além de redes dedicadas ao cinema de autor em capitais, caso das salas Estação, no Rio, e Petra Belas Artes, em São Paulo, entre outras programações similares pelo país. Em algumas cidades, mostras de cinema LGBTQIAPN+ também incluem o longa em sessões comentadas, o que favorece debates sobre sexualidade, envelhecimento e interior.
A classificação indicativa para maiores de 18 anos decorre das cenas de nudez, violência e desejo que integram a proposta de melodrama com suspense. Quem se aproxima da obra encontra um ritmo mais lento, focado em atmosferas, gestos e silêncios. Por isso, a experiência em sala depende dessa disposição para acompanhar o amor e resistência em 1984 até os efeitos que esse vínculo produz quarenta anos depois. A questão que permanece envolve a forma como esse tipo de narrativa, enraizada em um passado recente, dialoga com um público que, em 2026, ainda enfrenta conflitos parecidos fora da ficção. Dessa maneira, o filme convida o espectador a refletir sobre memória, desejo e futuro para corpos dissidentes no Brasil, além de provocar uma revisão crítica dos mitos em torno da masculinidade rural.
