O marinheiro sueco que se tornou rei de uma ilha do Pacífico
No início do século 20, um marinheiro humilde buscou abrigo em uma ilha no Pacífico — e acabou se tornando rei

Em 1904, o destino de um simples marinheiro sueco mudou para sempre. Na noite de Natal daquele ano, Carl Emil Pettersson, tripulante do navio Herzog Johan Albrecht, viu sua embarcação naufragar nas águas quentes do Pacífico. Exausto, alcançou a costa da Ilha Tabar, um recanto vulcânico coberto por florestas densas, bem distante das falésias frias da Suécia.
Nascido em 1875 nos arredores de Estocolmo, Pettersson era filho de uma família humilde. Depois que o pai abandonou o lar, se viu obrigado a trabalhar para ajudar a sustentar os irmãos e, aos 17 anos, partiu para o mar, passando a ganhar a vida como marinheiro. Mais tarde, foi contratado pela empresa comercial alemã Neuguinea-Compagnie, que atuava no Pacífico Sul. Nada em sua trajetória sugeria que um dia governaria uma ilha tropical.
Porém, surpreendentemente, foi exatamente isso que aconteceu. Ao chegar em Tabar, Pettersson se deparou com um povo temido por viajantes europeus, que os descreviam como canibais. Capturado, foi levado ao rei local, Lamy.
Ao lado do soberano estava a princesa Singdo, que, dizem os relatos, logo teria se apaixonado pelo estrangeiro. Ali, diante do monarca, Pettersson prometeu trazer prosperidade à ilha através de uma plantação de coco. Em troca, queria se casar com sua filha. A promessa foi cumprida e, três anos depois, ocorreria a cerimônia. Assim, o sueco tornou-se parte da realeza local.
Carl, o rei de Tabar
“Strong Charley”, como passou a ser chamado, governou com justiça e conquistou o respeito do povo. Como destacou o portal All That’s Interesting, ele ampliou as plantações, gerou riqueza e teve nove filhos com a princesa. Após a morte de Lamy, assumiu o trono de Tabar.
A fama do marinheiro logo chegou à Suécia, onde jornais o transformaram em uma espécie de herói. Por lá, era “Rei Carl, o Primeiro”, que enfrentava tubarões, piratas e tesouros escondidos em contos extremamente exagerados.
O próprio Carl, é claro, gostava de fazer declarações sobre suas aventuras. Maria Chan Hoerler, neta do rei, chegou a declarar à SBS em 2019: “Ele escrevia nos jornais suecos e sempre quis contar às pessoas suas aventuras no Pacífico Sul. Ele escrevia sobre toda a família e o que eles faziam.”
Mas logo viriam tempos difíceis. Em 1921, Singdo morreu de febre após o parto, deixando Pettersson viúvo, com nove filhos. Abalado, o sueco retornou à Europa, onde casou-se novamente. Ele voltaria a Tabar em 1923, mas acabaria por encontrar seu reino em ruínas.
Tentou reconstruí-lo e, por um breve instante, a sorte pareceu sorrir novamente a Pettersson, quando teria descoberto um depósito de ouro na ilha vizinha de Simberi. A promessa de riqueza reacendeu suas esperanças, mas logo veio a doença: tanto ele quanto sua nova esposa, Jessie Louisa Simpson, contraíram malária. Simpson deixou Tabar em busca de tratamento na Austrália e, posteriormente, retornou à Suécia, onde faleceu em 1935.
Últimos anos
No mesmo ano, Pettersson abandonou a ilha que havia sido seu lar e seu reino. No entanto, jamais voltou à terra natal. Sua jornada terminou em Sydney, onde morreu de ataque cardíaco em 1937, aos 61 anos. Com sua morte, seu filho, Frederick, naturalmente herdou a coroa. Ele tentou oferecer a ilha ao governo sueco, sem sucesso.
Uma curiosidade envolvendo Carl Emil Pettersson reside no fato de seu legado ter inspirado as histórias da escritora sueca Astrid Lindgren, criadora da personagem Pippi Meialonga, uma garota de cabelos ruivos cujo pai é um marinheiro perdido que retorna para revelar que se tornara rei de uma ilha no Pacífico.