Ischia: a ilha italiana onde moradores cozinham na areia vulcânica
Entre vulcões e praias fumegantes, tradição de Ischia transforma o calor subterrâneo em cozinha natural

Na ilha de Ischia, no sul da Itália, a geologia não apenas moldou a paisagem, mas também influenciou a cultura e o modo de vida de seus habitantes. Graças à intensa atividade vulcânica que caracteriza a região, algumas praias exibem um fenômeno singular: a areia atinge temperaturas tão elevadas que pode ser usada como um forno natural.
O exemplo mais conhecido está em Sant’Angelo, na praia de Le Fumarole. Ali, as fumarolas — aberturas no solo por onde escapam vapores quentes e gases — criam um ambiente em que o calor chega a quase 100 °C. Essa energia subterrânea é aproveitada pelos moradores, que desde tempos antigos cozinham alimentos enterrando-os sob a areia fervente. O processo é simples: batatas, ovos, legumes ou pedaços de frango são embrulhados em papel alumínio, ou em pacotes resistentes, e cobertos pela areia quente, onde permanecem até o ponto ideal de cozimento.
Cozinha natural de Ischia
A prática, porém, exige experiência. O solo pode ser incandescente, capaz de causar queimaduras graves. Por isso, os moradores locais conhecem bem os locais mais adequados para enterrar os pacotes e calculam o tempo necessário de preparo, que pode variar conforme a profundidade e a intensidade do calor. Para os visitantes, participar da experiência significa, antes de tudo, respeitar a força da natureza.
Mais do que uma curiosidade culinária, esse método de preparo é parte da identidade de Ischia. Ao transformar a energia vulcânica em aliada, a população encontrou um modo criativo de integrar a geologia à vida cotidiana. Para os turistas, o ritual de cozinhar na areia tornou-se uma atração irresistível, unindo gastronomia, tradição e paisagem. É comum ver viajantes acompanhando a cena: moradores enterrando pacotes fumegantes e, algum tempo depois, retirando alimentos dourados, prontos para serem degustados à beira-mar.
O cenário amplia ainda mais o encanto da experiência. O contraste entre as águas azul-turquesa do Mediterrâneo e as pedras fumegantes cria uma atmosfera quase surreal. Caminhar pela areia aquecida, sentir os vapores subindo do solo e observar o mar logo à frente reforça a sensação de estar diante de uma manifestação bruta e, ao mesmo tempo, generosa da natureza.
Em tempos em que a cozinha de vanguarda busca inovação constante, a tradição de Ischia mostra a simplicidade de um gesto ancestral: aproveitar o calor da Terra para alimentar. É um lembrete de como comunidades podem conviver com fenômenos extremos e transformá-los em parte de sua cultura. Cozinhar na areia vulcânica, em Ischia, é mais do que preparar uma refeição — é celebrar a vida em harmonia com a força invisível que pulsa sob os pés.
*Sob supervisão de Fabio Previdelli