Vítor Soares / Ankhnespepy

Ankhnespepy: A rainha esquecida que ‘comandou’ o Egito como um faraó

Antes de figuras lendárias como Cleópatra e Hatshepsut, a rainha Ankhnespepy já exercia grande poder no Egito; mas sua história ficou esquecida por séculos!

Estátua da Rainha Ankhnespepy II com seu filho, o jovem Faraó Pepy II - Egypt Museum

Muito antes de figuras lendárias como Cleópatra e Hatshepsut dominarem os anais da história egípcia, uma rainha da Sexta Dinastia (c. 2325–2175 a.C.) alcançou um nível sem precedentes de poder político e religioso, exigindo para si a imortalidade reservada aos faraós homens.

Seu nome era Ankhnespepy II, uma regente visionária cuja ambição e inovação a posicionaram como uma das mulheres mais poderosas do Reino Antigo. Por milênios, sua história permaneceu envolta em mistério, mas descobertas arqueológicas recentes no vasto complexo de Saqqara finalmente revelaram a audácia desta “rainha eterna”.

Figura de poder

A primeira pista de sua extraordinária autoridade reside em uma modesta, mas impressionante, escultura de alabastro de 40 centímetros de altura, que hoje chama a atenção em um canto tranquilo do Museu do Brooklyn, em Nova York.

A obra, datada de mais de 4.000 anos, retrata a Rainha Ankhnespepy II sentada em seu trono, com seu filho, o jovem Faraó Pepy II, aninhado em seu colo. Ele ostenta o inconfundível toucado real, o mesmo emblema de realeza que seria visto séculos depois em faraós como Tutancâmon.

No entanto, há uma subversão intencional das rígidas regras artísticas do Egito Antigo que torna esta escultura única. Ankhnespepy é retratada com o dobro do tamanho de seu filho, o rei. Na arte egípcia, o faraó era tradicionalmente retratado como a figura mais imponente, superando a todos, exceto os deuses.

Nesta peça, o rei pode usar a coroa, mas é a mãe quem domina a composição, uma declaração de poder que antecedeu a própria escrita da história. A escultura parecia perguntar: como uma mulher ascendeu a tal nível de comando em um mundo arquitetado para reis?

Estátua enigmática

Por muitas décadas, a estátua permaneceu como um enigma, divorciada de sua origem e propósito, oferecendo apenas um vislumbre tentador da rainha que governou o Egito em nome de seu filho durante o crepúsculo do Reino Antigo. A resposta decisiva, contudo, só viria em 2000, nas areias da necrópole de Saqqara, lar das primeiras pirâmides do Egito e de muitos faraós poderosos.

A Missão Arqueológica Franco-Suíça em Saqqara (MAFS), liderada por Audran Labrousse e Jean Leclant, descobriu o complexo piramidal fragmentado que levava o nome de Ankhnespepy. A descoberta se tornou ainda mais notável quando os arqueólogos desenterraram suas câmaras funerárias subterrâneas.

O que eles encontraram no interior de sua câmara de sepultamento foi uma declaração de intenção religiosa e política inigualável: centenas de feitiços dos Textos das Pirâmides, as chaves de acesso mágicas à ressurreição e ao poder na vida após a morte, que até então eram reservadas somente para os faraós homens.

Esses textos, os ritos mais sagrados da antiga religião egípcia, tinham como objetivo conferir os poderes e a imortalidade dos deuses ao rei falecido. Eram honras às quais nem mesmo a elite mais alta poderia aspirar, pois somente o faraó – o filho do deus sol, , e a encarnação viva de Hórus – era digno de acesso ilimitado a essa magia poderosa.

Mulher independente

Os fragmentos dos Textos das Pirâmides de Ankhnespepy estavam espalhados pela areia e tiveram que ser reconstruídos meticulosamente. Ao longo de mais de 20 anos, o egiptólogo e epigrafista francês Bernard Mathieu e a equipe MAFS trabalharam para fotografar, desenhar e registrar os mais de 1.600 fragmentos escritos.

À medida que o complexo funerário da rainha foi limpo e os fragmentos inscritos foram recolhidos ao longo de onze campanhas de escavação, tornou-se uma questão de restaurar o programa completo de textos inscritos nas paredes da câmara funerária”, recorda Mathieu, conforme repercute o National Geographic.

Ao se apropriar dos encantamentos dos faraós, Ankhnespepy II cruzou uma fronteira religiosa tão radical quanto ousada, reivindicando para si a mesma vida após a morte divina e o mesmo poder de um faraó.

Labrousse, o arqueólogo que descobriu sua pirâmide, a descreveu como “a primeira mulher independente. Mesmo que estivesse agindo em nome de seu filho, ela tinha o poder. Então, por que não a eternidade? Ela é a primeira mulher a se tornar imortal.”

Seus títulos a elevavam ao status divino, declarando-a “Filha de Dois Deuses”. Na escultura do Museu do Brooklyn, ela fortaleceu ainda mais seus laços divinos, posando em emulação à deusa Ísis, criando um paralelo intencional entre sua própria história e a da poderosa deusa que protegeu seu jovem filho Hórus após a morte de seu pai, pavimentando seu caminho ao trono.

A influência de Ankhnespepy não cessou com sua morte — inscrições revelam que ela foi reverenciada por um culto funerário duradouro por séculos depois de sua partida.

Rainha Regente

Ankhnespepy não era uma estranha ao poder. Embora fosse jovem quando se casou com o Faraó Pepy I (que governou de 2315 a 2275 a.C.), ela vinha de uma família influente em Abidos, uma província sagrada no sul. Seu pai serviu como governador regional.

Mais provocativamente, sua mãe foi uma das poucas mulheres conhecidas a ocupar a poderosa posição de vizir, o conselheiro-chefe do faraó e oficial máximo da vasta burocracia estatal. Para uma jovem criada nesse ambiente, a ideia de que mulheres poderiam ocupar os mais altos níveis da administração pública não era inimaginável; em sua família, era um precedente.

Não é surpresa que seu casamento tenha sido um arranjo político, aprofundando os laços familiares com a corte. Tanto Ankhnespepy quanto sua irmã mais velha tornaram-se esposas de Pepy I.

Para celebrar sua união e sua proximidade com o rei, Ankhnespepy II adotou o nome pelo qual a conhecemos hoje, que se traduz como “aquela que vive para Pepy” — um nome que ela manteve pelo resto de sua vida, mesmo após as mudanças políticas e um segundo casamento. Era uma declaração de sua posição de destaque na hierarquia real e um tributo ao seu poderoso primeiro marido.

Seu momento de maior teste chegou quando seu filho, Pepy II, foi coroado faraó com apenas cerca de seis anos de idade ( 2260 a.C.). A Sexta Dinastia era uma era de turbulência, marcada por conspirações cortesãs e faccionalismo político.

A glória da era das grandes pirâmides já havia ficado para trás, e oficiais regionais cada vez mais poderosos corroíam o coração do poder faraônico. Como rainha regente, encarregada de administrar o reino até que seu filho atingisse a maioridade, Ankhnespepy navegou nessas condições perigosas com notável habilidade.

Dentro do palácio, a rede de viúvas, filhos e parentes de Pepy I formava um cenário político carregado, no qual o reinado de uma criança-rei poderia ser facilmente derrubado. Além disso, o perigo espreitava fora da corte, com os núbios, ao sul, resistindo ao controle faraônico e rebeliões eclodindo nos territórios ao norte.

Embora os detalhes de sua regência sejam escassos, o resultado é inquestionável. Seu filho viria a governar por mais de 65 anos, o reinado mais longo de qualquer monarca egípcio na história. Sua sobrevivência e a estabilidade do reino naqueles primeiros anos apontam para uma regente que geriu o fio da navalha política do Egito com sagacidade e firmeza.

Testemunhos de sua autoridade política sobreviveram no registro arqueológico em todo o Egito. Uma inscrição nas minas de turquesa de Wadi Maghara, na Península do Sinai, a proclama como a governante que comandou esta missão real em seu próprio nome, além do nome de seu filho.

A imagem que a acompanha a retrata usando o khepresh (a coroa de guerra ou touca azul) do rei, em vez do toucado de rainha, e a nomeia como “amada de todos os deuses”, uma descrição usada exclusivamente pelos faraós.

Realeza feminina

A descoberta de 2000 não apenas revelou os textos, mas também alterou a compreensão da história da realeza feminina egípcia. O complexo piramidal de Ankhnespepy era tão vasto que levou três anos para a equipe localizá-lo. A base da pirâmide media cerca de 30 metros de cada lado, tornando-a uma das maiores já construídas para uma rainha egípcia.

Mais importante do que o tamanho, o monumento continha características associadas unicamente aos faraós do Egito, incluindo uma entrada larga e pilastrada, uma grande antecâmara quadrada e um Salão de Ofertas.

Ankhnespepy II foi lembrada não apenas como a mãe de um faraó, mas também como uma mulher que ousou reivindicar para si as mesmas proteções mágicas e a mesma vida após a morte divina que os reis.

Séculos antes que Hatshepsut e Cleópatra desafiassem o status quo, Ankhnespepy II realizou um ato revolucionário, forjando uma identidade de poder que garantiu a ela o domínio tanto em vida quanto na eternidade, e gravando seu nome como uma inovadora política e religiosa na fundação do Egito.

Jornalista de formação, curioso de nascença, escrevo desde eventos históricos até personagens únicos e inspiradores. Entusiasta por entender a sociedade através do esporte. Vez ou outra você também pode me achar no impresso!