Vítor Soares / Valentina Vassilyev

A russa do século 18 que teria dado à luz 69 filhos

Mulher russa do século 18 é reconhecida pelo Guinness como pessoa que mais deu à luz — mas seria biologicamente possível ter tantas gestações?

Ilustração do século 18 de Giovanni Battista Piranesi mostra mulher grávida - Crédito: Getty Images

Você já se perguntou quem teria sido a pessoa a dar à luz mais vezes na história? Dizem que esse título pertenceria a Valentina Vassilyey, uma camponesa russa que viveu durante o século 18 e teria tido um total de 69 filhos. É possível que esse número impressionante não seja totalmente preciso, mas há registros históricos suficientes para que até o Guinness World Records reconheça Vassilyey como a “mãe mais prolífica” da história. Mesmo assim, a persiste a dúvida: seria realmente possível uma mulher ter tantos filhos, especialmente nas condições médicas da época?

De acordo com a BBC, documentos atribuídos a um mosteiro russo indicam que Vassilyev teria dado à luz 27 vezes entre os anos de 1725 e 1765. O número total de filhos — 69 — seria explicado pela frequência incomum de partos múltiplos. Ao longo de cerca de quatro décadas, ela teria tido 16 pares de gêmeos, sete de trigêmeos e quatro de quadrigêmeos.

18 anos gestando

Como destaca uma matéria do portal All That’s Interesting, os registros sugerem que o primeiro parto da camponesa ocorreu por volta de 1725, enquanto que o último teria acontecido cerca de 40 anos depois, em 1765. Estima-se que, ao longo desse período, Vassilyev tenha passado aproximadamente 18 anos gestando. Outro detalhe que chama ainda mais atenção é a suposta taxa de sobrevivência dos filhos. Um relatório enviado a Moscou no ano de 1782 afirmava que apenas duas crianças teriam morrido na infância. O dado surpreende, considerando as altas taxas de mortalidade infantil da época.

Além dos registros monásticos, a história também aparece em fontes da imprensa do século 18. Em 1783, a revista britânica The Gentleman’s Magazine mencionou o caso, relatando que o marido de Vassilyev, Feodor, teria tido 69 filhos com sua primeira esposa e mais 18 com a segunda. O texto afirmava que essas informações vieram de um comerciante inglês em São Petersburgo, que alegava ter obtido dados confiáveis e até sugeria que o camponês fosse apresentado à imperatriz.

Outros relatos posteriores reforçam essa versão. Um livro publicado em 1834 menciona uma lista do mosteiro de Nikolskiy que teria sido enviada a Moscou em 1782, detalhando a impressionante descendência de Feodor Vassilyev: 87 filhos no total, sendo 69 com a primeira esposa e 18 com a segunda. Ainda segundo esse documento, ele teria 75 anos na época e 82 de seus filhos ainda estariam vivos.

Curiosamente, embora o nome de Feodor apareça com frequência nesses registros, a identidade da mulher é menos clara. Mesmo o nome “Valentina” pode não ser totalmente preciso, e há dúvidas sobre sua real identidade. Além disso, mesmo com múltiplas fontes mencionando o caso, muitos especialistas questionam a veracidade desses números.

Imagem ilustrativa – Crédito: Getty Images

Seria biologicamente possível?

Do ponto de vista científico, alguns aspectos da história são plausíveis. Uma mulher pode, em teoria, permanecer fértil por 40 anos, e também não é impossível ter um número elevado de gestações nesse período. Além disso, existe uma condição chamada hiperovulação, na qual o organismo libera múltiplos óvulos em um único ciclo menstrual, aumentando as chances de partos múltiplos. Isso poderia explicar a frequência de gêmeos e trigêmeos, mas também o histórico de seu marido poderia ser uma possível explicação.

No entanto, mesmo considerando esses fatores, a história levanta dúvidas importantes. Gravidezes múltiplas são, por natureza, mais arriscadas do que gestações únicas. No século 18, sem acesso à medicina moderna, cada gravidez já representava um risco significativo à vida da mãe. Sobreviver a 27 gestações, sendo muitas delas múltiplas e possivelmente em idade avançada, seria algo extraordinário.

Improbabilidade estatística

Mesmo hoje, com tecnologias avançadas, a ocorrência de tantos partos múltiplos em uma única mulher seria extremamente rara. Além disso, a taxa de sobrevivência descrita nos relatos chama atenção: na Rússia do século 18, mais de 25% das crianças morriam ainda na infância. Em casos de gêmeos, trigêmeos ou quadrigêmeos, esse risco era ainda maior, já que esses bebês frequentemente nasciam prematuros e com complicações. Diante disso, a ideia de que quase todos os filhos de Vassilyev tenham sobrevivido parece ainda mais improvável. Não é completamente impossível, mas altamente improvável.

Outro fator a ser considerado é a confiabilidade das fontes históricas. Embora existam registros e relatos contemporâneos, eles podem conter exageros ou erros. A transmissão de informações no século 18 dependia muitas vezes de relatos indiretos, como cartas e testemunhos, que nem sempre eram verificados com rigor.

Apesar dessas incertezas, o Guinness World Records mantém o reconhecimento de Valentina Vassilyev como a mulher com maior número de filhos da história. A justificativa é a existência de múltiplas fontes contemporâneas que apontam na mesma direção, mesmo que não haja uma comprovação definitiva.

Giovanna Gomes é jornalista e estudante de História pela USP. Gosta de escrever sobre arte, arqueologia e tudo que diz repeito à cultura e à história do ser humano.